Confessions of a Shopaholic

Por: Ale Simas
categorias: Colunas, Pop Coolture
Data: terça-feira, 14 de abril de 2009

confessions-of-a-shopaholicAntes de um filme, “Confessions of a Shopaholic” foi o título do primeiro de uma série que conquistou milhares de leitoras à beira de um ataque de compras. Sophie Kinsella, a autora dos cinco livros, conseguiu descrever muitas das crises que as mulheres sentem ao passar o tão temido cartão de crédito, e da alegria, por vezes orgástica, de sair de uma loja carregando um amontoado de sacolas. Por ter criado uma personagem tão amada e carismática e por ter participado como consultora do longa, achei que ela seria tão leal quanto eu à história. Mas me enganei. Trata-se apenas de um passatempo, sem chegar perto do que um dia os livros representaram. Diferente de “Bridget Jones”, que conseguiu em cada cena descrever a personalidade da personagem, e encontrar atores à altura para todo o elenco, “Confessions of a Shopaholic” é uma grande bagunça. Não que eu queira traçar comparações, mas fica impossível, visto o sucesso que foi a adaptação do livro da Helen Fielding.

Renée Zellweger engordou, aprendeu a falar o inglês britânico e simplesmente se comprometeu a ser tão desajeitada e patética quanto Bridget, e com isso conseguiu que nós, mulheres, nos reconhecemos na anti-heroína com calcinhas de vovó. Hugh Grant era Daniel Cleaver, Colin Firth era Mark Darcy e a química dos atores era palpável. Eles mantiveram os personagens no local de origem e foram fiéis aos diálogos e, principalmente, aos acontecimentos. Talvez o mérito venha do fato da própria Helen ter sido a roteirista do filme, mas mesmo assim. Existiam inúmeras outras maneiras de honrar a série.

Se eu tivesse entrado na sala do cinema sem ter lido nenhum dos cinco livros, talvez conseguisse escrever essa resenha de uma maneira mais neutra, mas esse não é o caso. Então, por algumas linhas, permitam-me a revolta de presenciar o assassinato da minha tão adorada Becky Bloom.

Pra começo de conversa, a história foi escrita originalmente em Londres. E esse fato sozinho já dita muito da maneira com que as conversas e confessions-of-a-shopaholic-08-thumbas amizades são descritas. Infelizmente, decidiram trucidar esse ‘detalhe’ e mudar a trama para Nova York. O que não seria problema, já que o segundo livro da série conta a mudança dela para a cidade. Mas independente do código postal, Rebecca Blomwood é britânica, e não americana. Se isso não fosse o bastante (o que pra mim já foi), os atores escolhidos não poderiam ser mais distantes da imagem que o público criou ao longo dos anos acompanhando os livros. Isla Fisher, por mais bonitinha e engraçadinha que seja, não é e nunca será Becky Bloom. Hugh Dancy não tem um fio de cabelo remotamente parecido com o que o personagem Luke Brandon deveria um dia ser. Isso sem levar em conta o maior absurdo de todos: o figurino. Visto que estamos falando de um enredo que gira em torno de uma pessoa que compra compulsivamente e tem uma fixação por marcas e designers, era de se esperar que as roupas apresentadas na tela fossem capazes de fazer as mulheres na sala de cinema enlouquecer, a ponto de largar o filme e descer a escada rolante do shopping em busca daquela bota, ou daquela bolsa.

Não aconteceu. A única coisa que me deu vontade de comprar foi uma aspirina, tamanha a tontura com a breguice oferecida.

Patricia Field, a designer do filme, tem no currículo clássicos do mundo fashion como “Ugly Betty”, “Cashemere Máfia” e o imortal “Sex and The City”. Pra esse longa, em entrevistas, ela disse que estaria ousando, dando um passo além no que diz respeito a moda. Se isso envolve cheirar cola e dançar “I Will Survive” no ateliê, então ela conseguiu. Porque só estando muito louca pra alguém sair de casa vestida com tais modelitos.

2009_confessions_of_a_shopaholic_004Mas como disse antes, isso tudo vindo de alguém que leu e releu os livros inúmeras vezes. Do ponto de vista de um marinheiro (ou marinheira) de primeira viagem, o filme consegue ser um pouco divertido. A história, meio que deturpada num roteiro que tenta juntar dois livros em um filme, está ali. Ainda temos essa jornalista nos altos dos seus 20 e poucos anos, endividada até o último centavo, que acaba se tornando a sensação de uma revista financeira dando conselhos sobre dinheiro. Está lá também a amiga que busca sem muito sucesso trazer um pouco de razão no meio de recibos e sacolas de roupas. E, claro, as mentiras entre a protagonista e um cobrador desesperado tentando arrecadar o seu dinheiro. Tudo existe, e quando deixei de traçar comparações, confesso que conseguir rir e até sentir uma certa alegria de estar assistindo a outra comédia romântica. Mas não durou. Diferente de outras adaptações de sucesso, como o mencionado “Bridget Jones” e mais recentemente “The Devils wears Prada”, este novo projeto se perde da fonte, e isso não é o que se espera de algo assim. ‘Chick Lits’ e ‘Chick Flicks’ andam juntos. Mas não neste caso. Oposto a tantas produções do gênero que são originais, mesmo que previsíveis, “Confessions of a Sophaholic” fracassa quando tenta ser carismático e envolvente. E isso, nem todas as cores do arco-íris utilizados do figurino são capazes de disfarçar. Se você tem uma compulsão por compras, não gaste no ingresso, e sim no livro.

Ale Simas mora fora do Brasil já há 5 anos. Os dois primeiros, passou tomando sol em Los Angeles. Nos últimos 3 vem construindo iglus no Canadá, e namorando um urso polar (que prefere não se identificar). No tempo livre, se alimenta nao só de chocolate, mas de filmes, livros, amigos e televisão. Prefere não mencionar música, já que tem a certeza absoluta de que vai ser presa pela quantidade de downloads feitos diariamente. Gosta de coisas toscas, mas também inteligentes. Tosquice é um estado de espírito, já dizia um sábio. Tosco, claro.
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