Cidade dos Homens
Se PALACE II (dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund e roteirizado por Bráulio Mantovani e Paulo Lins, a mesma equipe por trás de CDD) serviu como um laboratório ao aclamado longa de Meirelles – que somou em sua excepcional carreira quatro indicações ao Oscar, mais de três milhões de espectadores no Brasil e cerca de US$ 27 milhões de dólares de arrecadação mundial nas bilheterias – foi somente com o este desdobramento – o próprio “Cidade dos Homens”, seja no cinema, seja na televisão – que algumas questões mais íntimas e urgentes desse microcosmo puderam ser melhor trabalhadas. Proporcionando, deste modo, um olhar mais complacente e, ao mesmo tempo, crítico.
CIDADE DOS HOMENS, o filme, traz ao centro da discussão um dos temas mais caros e recorrentes dentre a população enfocada: a ausência paterna. Enquanto Acerola está aprendendo a ser pai logo aos 18 anos, Laranjinha recebe a maioridade com uma inquietação: quem é – ou foi – seu pai? Os dois, amigos desde a infância, tentaram juntos aprender como responder estas inquietações. O fato de termos acompanhado a evolução dos dois personagens é extremamente gratificante, pois se crescemos ao lado deles, melhor compreendemos as motivações que os guiam. E para isto não se faz necessário ter assistido a tudo já produzido com eles: o uso de flashbacks pelo enredo é muito bem articulado, colocado em momentos cruciais e sem exploração. O excelente arquivo natural é posto à serviço do roteiro, contribuindo positivamente para todos os envolvidos.
Fernando Meirelles, após o sucesso internacional de CDD, tem se envolvido cada vez mais em projetos hollywoodianos, como o elogiado O JARDINEIRO FIEL e o ainda inédito BLINDNESS. Assim, ele assume como produtor, abrindo espaço para o sócio dele na produtora O2, Paulo Morelli (VIVA VOZ), tomar conta da direção de CIDADE DOS HOMENS. A transferência de mão pouco se sente, e o resultado apresentado é muito satisfatório. O que carece em CDH é a ambição, ousadia, originalidade e, acima de tudo, ineditismo presente no filme anterior, que provocou outros olhares, opiniões e reflexões sobre o cinema feito no Brasil. Este novo filme não quer traçar um painel grandioso sobre um problema social – não, a vez agora é de narrar o que acontece a dois moradores daquele universo, propondo uma visão mais íntima e, ainda assim, universal.
CIDADE DOS HOMENS não é o melhor filme do ano. Não é inesquecível ou revolucionário. Mas é um alento dentro de uma temporada de poucas surpresas. E, acima de tudo, é um trabalho honesto e sincero, que cumpre com honra o que se propõe, se posicionando como mais uma peça dentro de um contexto maior e que está firmado no cenário cinematográfico nacional. Sua ascendência é intimidante, mas ninguém aqui ficou aquém do esperado, e o que temos é uma obra singular, competente e digna de méritos próprios.
Cidade dos Homens, Brasil, 2007
(nota 8)

