“Chega de Saudade”
Por: Robledo Milani
categorias: Críticas, Película
Data: domingo, 15 de junho de 2008
Uma das produções nacionais mais comentadas da recente temporada justifica todo elogio recebido: “Chega de Saudade”, de Laís Bodanzky, é realmente uma delícia. Filme inteligente, com roteiro pensado e estruturado, personagens muito bem construídos, uma direção original e criativa, um elenco afinado e uma trilha sonora tão pesquisada e inteligente que acaba se tornando um elemento crucial do sucesso da empreitada. E como é bom assistir a um filme em que simplesmente tudo funciona à perfeição!
Quando estava lançando seu trabalho anterior, “Bicho de Sete Cabeças” (2001), eu conversei com a diretora, que me confidenciou que uma de suas maiores emoções profissionais tinha sido a oportunidade de finalizar seu filme na Cinecittá, em Roma, numa sala ao lado onde Ettore Scola estava editando “Concorrência Desleal”. Conhecer o respeitado cineasta italiano foi uma honra imensa para ela, a ponto inclusive de influenciar seu longa seguinte, este “Chega de Saudade”. A referência mais óbvia é uma outra obra de Scola, “O Baile” (1983), até pelo tema do enredo – as diversas situações possíveis de acontecer durante um baile de salão – mas é num terceiro filme de Scola que a estrutura de “Chega…” se apóia: “O Jantar” (1998). Assim como neste emocionante trabalho estrelado por Fanny Ardant e Vittorio Gassman, Bodanzky e o marido Luiz Bolognesi construíram um enredo baseado basicamente nos personagens, nas interações entre eles e como reagem a cada nova situação. É um salão de dança, mas poderia ser perfeitamente qualquer outro lugar. O carinho e respeito com que eles são tratados certamente seria mantido da mesma forma.
Bolognesi e Bodanzky afirmam que estudaram por meses o ambiente enfocado para o preparo do roteiro. E desse período de observação são criações completamente naturais deste universo: a solteirona desesperada (Betty Faria, com uma entrega impressionante), a apaixonada ferida no seu orgulho (Cássia Kiss, contida na medida certa e muito adequada ao que lhe é exigido), a viúva em busca de um novo parceiro de dança (Tônia Carrero, num papel inicialmente pensado para Fernanda Montenegro, mas que surpreende a cada instante, até um discurso final ao pé da escada que comove até o mais renitente), a garota estranha ao lugar que observa tudo com um misto de curiosidade, repulsa e fascínio (Maria Flor, delicada e exuberante), o conquistador de boa lábia (Stepan Nercessian, mostrando mais uma vez, assim como em “Podecrer!”, um talento muito superior ao que costuma revelar na televisão), o viúvo amargurado (Leonardo Villar, responsável por alguns dos momentos mais emocionantes) e o dj alheio a tudo que se passa ao seu redor e só preocupado com o que lhe diz respeito direto (Paulo Vilhena, também surpreendentemente adequado).
Todos estes tipos interagem em altos e baixos. Para uma proposta que se imagina à princípio tão feliz, chega a chocar quando nos pegamos, em determinadas seqüências, sofrendo com praticamente todos os envolvidos. E da dor logo somos conduzidos para a vitória, num rodízio de sucessos e perdas, paixões de uma noite e amores de uma vida inteira. “Chega de Saudade” celebra, acima de tudo, a vida daqueles que se negam a deixar de aproveitar até o último instante.
Premiado no último Festival de Brasília nas categorias de Melhor Direção e Melhor Roteiro, “Chega de Saudade” teve um orçamento de R$ 4,6 milhões de reais, e tem produção da Gullane Filmes, a mesma de títulos como “O Ano em que meus pais saíram de Férias” e “O Mundo em Duas Voltas”. Apesar do fraco retorno de bilheteria que vem obtendo, tem se mantido entre os dez filmes nacionais mais vistos deste ano, o que, mesmo assim, não deixa de ser uma injustiça – deveria, sim, estar entre os filmes mais vistos entre todas as nacionalidades, brasileiros ou não! Com uma edição extremamente bem elaborada de Paulo Sacramento (“O Prisioneiro da Grade de Ferro”), fotografia de Walter Carvalho (“Cazuza – O Tempo não Pára”) e trilha sonora de Bid (leia mais aqui), este é um filme para ser degustado aos poucos, enxuto e objetivo, cheio de sabores diversos para serem apreciados com interesse e sabedoria. E para ser levado para casa com carinho, como as emoções de uma festa que não quer acabar.
Chega de Saudade, BRA, 2007
De Laís Bodanzky
Com Betty Faria, Tonia Carrero, Leonardo Villar, Maria Flor, Cassia Kiss, Paulo Vilhena, Stepan Nercessian, Elza Soares, Marku Ribas
(nota 9)





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