Archive for the ‘Teatro’ Category
domingo, novembro 23rd, 2008 |
Marília Pêra escolheu a capital gaúcha para a estréia nacional de seu novo espetáculo como atriz, “Gloriosa”. O título, a princípio, pode parecer irônico, já que trata da vida de uma das piores cantoras de todos os tempos, mas é bastante apropriado à protagonista: Pêra está simplesmente deslumbrante no papel de Florence Foster Jenkins, uma milionária excêntrica que não conseguia acertar uma única nota musical, mas insistia em ser cantora lírica. E o melhor, obviamente, é ver uma das melhores atrizes brasileiras – senão a melhor! – interpretando alguém desprovido de talento algum. Uma contradição deliciosa.
Com tradução e direção da consagrada dupla Cláudio Botelho e Charles Möeller, os mesmos responsáveis pelos musicais de maior sucesso no cenário teatral brasileiro recente, como “A Noviça Rebelde” e “Sweet Charity”, “Gloriosa” tem um forte apelo musical, é claro, mas está além disso. É, na verdade, a história de uma mulher que vivia num mundo de fantasias e ilusões, pois realmente acreditava no potencial artístico que não possuía. E se o tom que permeia é o da comédia – e, acredite, é realmente muito engraçado – na verdade estamos diante de um drama, de uma situação triste que terá um final ainda mais trágico. Mas que, encarado com bom humor e um olhar positivo, acaba sendo uma incrível mensagem de esperança e fé pessoal.
“Gloriosa” não é perfeita. Se a parte multimídia, com vídeos que ilustram com impressionante competência as passagens de tempo e nos colocam diante das reais feições dos personagens encenados, surpreende, estes mesmos intervalos acabam soando por vezes desconexos, dificultando a interação com a audiência. Quando começamos a nos interar com os sentimentos e expectativas que estão se desenrolando numa ação particular, ela logo é encerrada e nos vemos diante de um contexto diferente. E começa tudo novamente. Mesmo o grande momento final, quando a protagonista nos mostra como era a realidade que ela mesmo acreditava existir, num belo solo, poderia ser melhor aproveitado. Mas a excelência do elenco – que, além de Marília, apresenta também um inesperado Eduardo Galvão e uma cômica Guida Viana – é mais do que suficiente para fazer destes solavancos facilmente superáveis.
Escrita por Peter Quilter e inspirada num fato real, “Gloriosa” estreou nos palcos internacionais em agosto de 2005, no Birmingham Repertory Theatre. Logo se tornou a peça mais vendida da história deste teatro, apresentando-se em seguida em casas cheias de diversas cidades até estrear em Londres, onde recebeu críticas entusiasmadas. Lá permaneceu em cartaz por seis meses, recebendo os prêmios “Theatregoers” e o “Laurence Olivier” de Melhor Comédia Musical. Florence Jenkins, assim como a própria Marília Pêra, era uma diva, e talvez por isso mesmo encontra na renomada atriz brasileira sua intérprete perfeita. Jenkins era cheia de excentricidades: sem noção da sua falta de talento, seguia bancando suas apresentações em recitais e encontros de associações, quando fazia questão de entrevistar previamente cada um dos espectadores. Ao surgir, em 1944, a oportunidade de cantar no Carnegie Hall – a mais prestigiosa casa de shows de Nova York – assumiu toda e qualquer dívida para realizar este sonho, feito atingido apenas em parte: o espetáculo foi o maior sucesso da temporada, com pessoas tendo que ir embora por não haver mais ingressos disponíveis. Tamanho sucesso foi compensado pelo terrível ataque da crítica nos jornais do dia seguinte. Esta reação negativa levou Florence à reclusão do seu quarto, de onde saiu, morta, um mês depois.
Mais do que uma curiosa história de uma vida que se recusou a encarar a realidade e que somente no final entregou os pontos, negando-se a viver num mundo que não reconhecia seu empenho e vontades, “Gloriosa” é, sim, mais uma deslumbrante oportunidade de conferir o desempenho de uma mulher que é, inegavelmente, referência dentro do cenário artístico nacional. Mais ainda do que na televisão (onde foi, recentemente, o grande destaque da novela “Duas Caras”) e do cinema (meio que registrou trabalhos premiados, como “Pixote – A Lei do Mais Fraco” e “Central do Brasil”), é no teatro onde Marília está, definitivamente, em casa. E “Gloriosa” é a consagração de um ano primoroso para ela: após dirigir dois dos maiores sucessos do ano – “Doce Deleite”, com Reynaldo Gianecchini e Camila Morgado, e a nova montagem de “O Mistério de Irma Vap”, com Marcelo Médici e Cássio Scapin, ambas em cartaz em São Paulo – agora ela mostra que é mesmo quando está em cena que temos a chance de vê-la em estado de graça. E nada mais ‘glorioso’ do que isso!
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sexta-feira, novembro 14th, 2008 |
O belo espetáculo “Virgolino e Maria – Auto dos Ângicos” poderia, muito bem, ter seu nome inspirado no clássico de Machado de Assis. Baseado em gravações e em outras recordações, reencena as últimas horas do casal que marcou época como símbolo do Cangaço. E impressiona perceber como algo anunciadamente trágico pode combinar consigo bom humor e uma emocionante história de amor.
Infelizmente para os que ainda não conferiram, o texto de Marcos Barbosa dirigido por Amir Haddad está em suas últimas apresentações. Porto Alegre é a penúltima cidade a receber a peça nesta turnê nacional, que já dura mais de um ano. Depois dos gaúchos, só os catarinenses de Florianópolis poderão ter uma derradeira oportunidade de conferir nos palcos os impressionantes desempenhos de Marcos Palmeira e Adriana Esteves. Ele, até pelo tipo físico, convence de imediato. Ela, loira e baixinha, provoca um estranhamento inicial, mas que logo é superado pelo talento da atriz. Foram poucas as vezes que a vi ao vivo, mas parece ser esse seu melhor terreno. No cinema, em filmes como “Trair e Coçar é Só Começar”, ou na televisão, em programas como “Toma Lá Dá Cá”, não se tem uma boa dimensão do potencial dramático dela. São poucos os intérpretes que conseguem escorrer lágrimas pelo rosto no meio de uma cena aparentemente comum, sem auxílio de uma trilha sonora impactante ou de outros artifícios quaisquer. E isso ela faz aqui, com total competência. Sua postura enfezada, típica de uma mulher arretada e marcada pela vida, completam na construção do personagem. Nós acreditamos nela, na ternura e na raiva que contém, na paixão e no ódio que sente por aquele homem ao seu lado.
No final das contas, “Virgolino e Maria – Auto dos Ângicos” é justamente isso, prenomes sem complemento, um retrato discreto de um momento bastante especial na vida de duas pessoas comuns, que por acaso também eram conhecidas por Lampião e Maria Bonita. Donos do Nordeste brasileiro, não tinham direito de comandar as próprias trajetórias nem de decidir por um futuro calmo e feliz em família. Estas contradições entre o épico e o íntimo ganham um olhar delicado e, ao mesmo tempo, abrangente, graças à diálogos envolventes, a um bom jogo de luzes e a dois intérpretes atentos as suas capacidades, explorando-as ao máximo.
Se a primeira metade é um pouco cansativa, num ritmo lento e obscuro, quando assuntos banais– do tipo “quem faz o café hoje?”, “por que levantou tão cedo?” – parecem não levar a lugar nenhum, logo a trama muda, e nos vemos diante da calmaria que precede a tempestade. “Virgolino e Maria – Auto dos Ângicos” tem tudo o que se pode esperar de uma boa peça de teatro: atores no domínio dos seus personagens, um diretor econômico e compreensivo, uma luz trabalhada, figurinos criativos e um cenário que aproveita bem as possibilidades existentes. Aqui em Porto Alegre a reação não poderia ter sido melhor: após uns cinco minutos de aplausos ininterruptos, a platéia só parou para atender a um pedido dos protagonistas, que, humildemente, agradeceram a oportunidade de se apresentarem por aqui. Que é isso, pessoal – quem agradece somos nós!
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domingo, junho 29th, 2008 |
Ao contrário do que acontece na grande maioria das vezes, quando peças teatrais de sucesso servem de base para filmes (os exemplos são inúmeros, tanto no Brasil quanto no exterior), foi no cinema que o diretor João Falcão (“A Máquina”) foi buscar inspiração para o seu novo projeto nos palcos: “Ensina-me a Viver”, em cartaz desde o final do ano passado em São Paulo e que passou há pouco por Porto Alegre. O texto é de Colin Higgins (roteirista também de “Como eliminar seu chefe”, de 1980, e “A Melhor Casa Suspeita do Texas”, de 1982), e foi levado às telas em 1971 por Hal Ashby (“Muito Além do Jardim”, de 1979). E a peça, apesar de funcionar bem no palco, faz questão de em nenhum momento esconder sua origem cinematográfica. Uma sábia decisão do diretor.
O enredo é bastante simples, e muito conhecido. Harold é um jovem de 19 anos e deprimido, que vive simulando a própria morte. Maude é uma senhora de 79 anos excêntrica e divertida, desapegada dos bens materias e que aproveita cada minuto da vida. Um dia os dois se encontram num funeral, e aos poucos vão se envolvendo. Ela irá mostrar a ele o como é bom viver, e não levará muito tempo para esta amizade se transformar em amor verdadeiro. Os 60 anos que separam os dois será um empecilho apenas para a mãe do rapaz, chocada com a notícia. Só que a união dos apaixonados enfrentará uma decisão irrevogável de um deles.
No papel de foi de Ruth Gordon (vencedora do Oscar por “O Bebê de Rosemary”) está Glória Menezes. A gaúcha de Pelotas sempre foi reconhecida mais pela forte presença cênica e pela beleza, mas a idade está lhe fazendo bem. Assim como em seus últimos trabalhos nos palcos (“Jornada de um Poema” e “Ricardo III”), ela compõe uma personagem forte e profunda, que se no início provoca estranhamento, logo conquista o espectador. Ela é, mais uma vez, a atuação de maior destaque. Arlindo Lopes (que no cinema participou de “Cazuza – O Tempo Não Pára” e “Cidade de Deus”) é o verdadeiro protagonista, o jovem Harold. Indeciso entre o dramático e o irônico, não chega comprometer. Mas está longe de atingir os méritos de Bud Cort, que pelo mesmo papel foi indicado ao Globo de Ouro e ao Bafta. Outras presenças de destaque são da também gaúcha Ilana Kaplan (a mãe do garoto), como o alívio cômico, e Augusto Madeira, que desempenha com impressionante desenvoltura diversos personagens, como o padre, o general e o detetive de polícia.
Mas o melhor mesmo de “Ensina-me a Viver”, a peça, são seus aparatos técnicos. A cenografia criada por Sérgio Marimba conquista desde o início, quando os créditos são projetados em telas móveis. Estas mesmas “cortinas” ficam em movimento durante toda a trama, compondo um cenário simples e eficiente. O mesmo pode ser dito dos objetos de cena, baseados em projeto gráfico de Dulce Lobo. O ferro, o metálico, as estruturas até então frias vão ganhando calor, adquirindo vida com os acontecimentos. E a iluminação proposta por Renato Machado e a pesquisada trilha sonora dirigida por Rodrigo Penna completam este conjunto com louvor.
“Ensina-me a Viver” foi um filme que marcou época, e agora é resgatado por um trabalho teatral que justifica esta retomada. Não é uma peça que irá provocar polêmicas ou fortes discussões – mesmo tendo material para tanto – mas é um texto bonito, apresentado de forma competente e atraente. Estimula a reflexão, nem que seja por alguns poucos momentos, e ainda entretêm sem desrespeitar a inteligência do público. Melhor do que isso só uma refilmagem comandada por uma equipe ainda mais gabaritada.
Ensina-me a Viver (Harold and Maude)
Texto de Colin Higgins
Direção de João Falcão
Com Glória Menezes, Arlindo Lopes, Ilana Kaplan, Augusto Madeira
(nota 7,5)
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