quinta-feira, janeiro 29th, 2009 |
O ano ainda está começando e já sabemos a tendência de mercado dos documentários brasileiros para 2009: serão os Musicais que irão dominar as telas. Afinal, vários estão em produção. E outros já estão sendo lançados. Uma lista foi publicada em edição recente do Jornal O Globo (16.01). Vou aproveitar para incluir produções gaúchas que também serão lançadas no “ano musical” dos documentários.
“Titãs – A Vida Até Parece Uma Festa” (acima), que inclusive teve pré-estréia em Porto Alegre. Ainda não vi e confesso que algo não cheira bem. Primeiro pela cara comercial do projeto. Nada contra planejar um filme comercialmente. Isso é necessário. Não é possível imaginar ou pensar o contrário nos dias atuais. Mas, quando se trata de documentar a carreira de uma das maiores bandas de rock do país, sei lá… Parece diminuir a potencialidade artística. Segundo pelo fato de ser um dos integrantes da banda que dirige o filme. No caso, Branco Mello. Quer algo mais suspeito? O “olhar interno” que ele prega como fundamental é na verdade o que ele viveu e sentiu a respeito da história. Acho que sua visão pode prevalecer sobre a visão dos demais integrantes. E isso pode levar a distorções. Acho que preferia o Lobão dirigindo seu próprio documentário. Seria mais autêntico. Bem, opiniões à parte, verei o filme. E depois prometo voltar o assunto.
A lista dos homenageados, opa, dos artistas em questão é grande, com gente fina, distinta e interessante. Outros nem tanto. “Um Morcego na Porta Principal” é o título que apresenta um inenarrável Jardes Macalé. Já mais conhecido, e não menos importante, “Loki” é a aguardada cinebiografia de Arnaldo Batista. “O Homem Iluminado” é uma visão de Tom Jobim, feita exclusivamente por mulheres. Quem dirige: Nelson Pereira dos Santos. Olha só, ele não é o cineasta mais experiente em atividade? Acho que sim. A fila anda, ou melhor, a lista segue. Tem Bezerra da Silva com “Onde a Coruja Dorme”, Wilson Simonal e seu ”Simonal: Ninguém sabe o duro que dei”, “Herbert de perto”, sobre Herbert Vianna, vocalista dos Paralamas do Sucesso, “A Noite”, abordando o III Festival de MPB da Record, em 1967. E, claro, toca Raul aí, cara! Um documentário sobre o homem que nasceu há 10 mil anos atrás: “Raul – O início, o fim e o meio”, resgata a vida e obra do baiano Raul Seixas.
E a cena local? Sim, estamos nessa também. “Fandango” narra o processo de criação das músicas que compõem o CD e DVD homônimo de Renato Borghetti. A equipe de filmagem acompanhou as etapas e o resultado foi o primeiro documentário longa-metragem captado em alta definição no RS. São cerca de 80 minutos mostrando o músico na sua fazenda. Renato e os integrantes do Quarteto compõem, ensaiam e gravam. E você vai entendo o processo. Destaque para belas e desconhecidas praias na Barra do Ribeiro, campos, estradas e imagens para se contemplar. Está programada uma sessão de “Fandango” no próximo Festival de Verão, que acontece em março na capital gaúcha. O diretor Rene Goya Filho é um dos profissionais mais atuantes e respeitados no meio musical aqui do estado. Foi o idealizador do belo curta “Um risco no Céu”, episódio vencedor da série Histórias Curtas 2008, abordando a carreira de Carlinhos Hartlieb, músico gaúcho que deixou um legado importante para nossa cultura.
Ainda em fase de projeto, mas já intenso e abrangente como tudo que faz, “Bebeto Alves, O Homem Invisível” documenta as experiências musicais, culturais e pessoais vividas pelo cantor uruguaianense e uma geração de músicos locais entre os anos setenta, oitenta, noventa e por ai afora. Neste caso, sou eu mesmo que divido a direção deste filme com o parceiro Rene Goya.
Considero natural e super importante o cinema registrar a música, cantores e compositores. É fundamental a valorização da memória e das obras. E também pelo fato do público estar demonstrando muito interesse nestas produções. Os números das bilheterias comprovam isso. Afinal, eu mesmo não disse que vou assistir “Titãs”? Bons filmes a todos.
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quinta-feira, novembro 20th, 2008 |
A apresentação da cantora norte-americana Cyndi Lauper na última quarta-feira, dia 19, em Porto Alegre, foi memorável. Última etapa da turnê dela pelo Brasil, após ter passado por São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba, ela entrou em cena aparentemente decidida e encerrar seu passeio por terras tupiniquins com chave de ouro. Apesar dos 55 anos – que não aparenta – Cyndi não perdeu o fôlego em nenhum momento, pulando, cantando a plenos pulmões e entoando todos – sim, absolutamente todos – os grandes sucessos de sua carreira. Não teve quem saísse do Teatro Bourbon Country decepcionado com este belo show!
Repetindo constantemente a pergunta “how you’re doing?”, Cyndi queria conquistar um público que já estava entregue. Para isso, apostou não só nos clássicos do repertório dela, mas também apresentou o último cd, “Bring Ya To The Brink”. E, sem dar folga a ninguém, foi alternando delícias pops como “Change of Heart” (de 1986) com “Into the Nightlife” (o último videoclipe, de 2008). Do trabalho mais recente vieram ainda “Echo”, “Grab a Hold” e a ótima balada “Rain On Me”, entoada numa versão à capela. Pena que, ao contrário do recente show da Kylie Minogue em São Paulo – em que TODOS da platéia conheciam de cor e salteado as canções do último álbum dela, “X” – aqui foi o contrário. Era só Cyndi investir numa das músicas novas e clima esfriava imediatamente. Infelizmente.
Qual foi a solução, então? Voltar às confirmadas, afinal… em time que está ganhando não se mexe, não é mesmo? E dê-lhes o que pedem: “Money Changes Everything”, “Sisters of Avalon”, “She Bop”, “All Through the Night” e as espetaculares regravações “I Drove All Night” (de Roy Orbinson) e “When You Were Mine” (do Prince). Bastante simpática, entre cada nova música ela falava com público, pedia para ver os presentes (“can I have a light?”) e, sem descansar, seguia mostrando um entusiasmo muito além do esperado. Era a sintonia perfeita entre todos que estavam ali: a estrela e a audiência.
Mais pro final, já tendo conquistado a todos, decidiu subverter a ordem do jogo e atender aos pedidos. Quando estava se preparando para a melódica “Time After Time”, parou tudo e prestou atenção no que metade da platéia berrava: “Goonies! Goonies! Goonies!” E a resposta dela? “But I… oh, what the hell, whatever!” E engatou “The Goonies Are Good Enough”, sucesso da trilha sonora desta pérola juvenil dos anos 80. O que ficou claro: sem fórmulas pré-estabelecidas ou roteiros inflexíveis, Cyndi Lauper estava disposta a se divertir – da mesma forma que o público presente!
O final foi consagrador, entregando a todos o que fora prometido desde o início: a citada “Time…”, uma apoteótica “Girls Just Wanna Have Fun”, combinada com trechos da versão remix “Hey Now”, e, encerrando aqueles 90 minutos de muita festa e alegria, a bela “True Colors”. Boas mensagens, muita diversão e um mito que se fez real. Cyndi Lauper encontrou em Porto Alegre um público que falou a mesma língua que ela. Afinal, de vez em quando “we just wanna have fun”!
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quinta-feira, maio 29th, 2008 |
Em mais de 25 anos de carreira, Madonna Louise Veronica Ciccone Ritchie já deixou bem claro porque é considerada a maior estrela do universo pop atual. Cantora, atriz, diretora, produtora, dançarina, escritora, ativista social, mãe e esposa: qualquer papel lhe cai bem, visto a desenvoltura que os desempenha. E o lançamento de seu novo álbum, “Hard Candy”, o décimo segundo de estúdio só com composições inéditas, mostra que ela conseguiu se reinventar mais uma vez. E isso já é tão comum que até poderia usar a tagline da amiga Britney: “oops, I did it again!”
O mais impressionante de “Hard Candy” é que ele representa a mais completa volta às origens da persona ‘cantora’ de Madonna. Afinal, quando foi lançado o primeiro trabalho, simplesmente intitulado “Madonna” (e relançado anos depois como “The First Album”), que conquistou as pistas e as paradas com canções arrebatadoras como ‘Holiday’, ‘Everybody’ e ‘Borderline’, a grande maioria acreditava tratar-se de uma nova artista negra! A confusão era tanta que a gravadora queria lançar uma versão da capa do disco sem uma foto dela, para manter o público na dúvida. Mas desde este início ela conseguiu impor sua vontade. Tanto que lá está ela, de olhar frágil e desafiador, cabelos curtos desgrenhados e correntes ao redor do pescoço, deixando claro quem iria ditar as regras a partir daquele momento. E “Hard Candy” é, nestas duas décadas e meia, o que mais se aproxima da produção musical negra do momento desde aquele começo promissor.
Madonna já brincou com o sexo (“Like a Virgin”), com sua intimidade (“True Blue”), com a religião (“Like a Prayer”), flertou com o cinema (“I’m Breathless”), com o erotismo (“Erotica”), com a exposição pública (“Bedtime Stories”), com a fugacidade do mundo contemporâneo (“Ray of Light”), com simples prazer da música (“Music”), com seu país (“American Life”) e com a dança (“Confessions on a Dance Floor”). Chegou a vez, agora, de parar e olhar para trás, combinando duas ou três lições antigas e incrementando esta receita com uma sonoridade inédita, porém em completa sintonia com a atualidade.
“Hard Candy” não é perfeito. Mas, assim como 90% da sua obra, é imensamente superior à maioria do que é lançado normalmente pelos demais artistas. Irregular, lembra em alguns momentos “American Life” (que continha canções ótimas, como ‘Hollywood’, ‘Nothing Fails’ e ‘Mother and Father’, ao lado de outras bem questionáveis, como ‘I’m So Stupid’, ‘Nobody Knows Me’ e a própria ‘American Life’). Se começa de forma perfeita, com ‘Candy Shop’ (excelente como introdução, com uma letra que exemplifica com bastante objetividade o que está por vir), logo incendeia com ‘4 Minutes’ (ao lado de Justin Timberlake e Timbaland), ‘Give it 2 Me’ (a melhor do álbum) e ‘Heartbeat’ (canção bobinha, porém envolvente). E a partir deste ponto o rumo da conversa muda.
‘Miles Away’ é a retomada ao universo das baladas, o que é quase uma controvérsia dentro da carreira dela. Muitos a acusam de não saber compor ou interpretar canções mais lentas, apontando que o forte seriam as mais agitadas, feitas para dançar. Bem, sucessos inegáveis como ‘Crazy for You’, ‘Live to Tell’, ‘Oh Father’, ‘Rain’, ‘Take a Bow’, ‘The Power of Good-bye’ e ‘What it feels like for a girl’, além da coletânea “Something to Remember”, só com baladas, deixam bem claro o contrário. Se em “Confessions on a Dance Floor” ela meio que havia abandonado esta faceta, aqui a retoma com bastante empenho. ‘Miles Away’ é bonita, mas vale mais como curiosidade por ser bastante pessoal (fala de relacionamentos à distância, como o dela e do marido inglês Guy Ritchie). Mas boa mesmo é ‘Devil wouldn’t recognize you’, a penúltima canção, um tema de amor sofrido, com um refrão irresistível e de uma entrega absurda. Outra faixa que vai direto para um futuro ‘best of’!
Temas recorrentes na sua obra se manifestam em outras composições. ‘She’s Not Me’ nada mais é do que uma releitura da superior ‘Thief of Hearts’ (presente em “Erotica”). É divertida, funciona bem, mas superficial. ‘Dance 2Night’ convida todos a dançar, a se divertir e esquecer os problemas do cotidiano, coisa que ela vem fazendo desde ‘Everybody’ – passando, neste meio tempo, por ‘Over and Over’, ‘Where’s the Party’, ‘Keep it Together’, ‘Deeper and Deeper’, ‘Don’t Stop’, ‘Nothing Really Matters’, ‘Impressive Instant’, a coletânea “You Can Dance” e quase todo o álbum “Confessions…”. Ou seja, ela domina o assunto, e a gente já sabe disso.
O interesse de Madonna pelo mundo latino também está de volta em ‘Spanish Lesson’, uma literal aula de espanhol. Desde ‘La Isla Bonita’ vem flertando com este universo de referências, que ficaram ainda mais evidentes com o decorrer dos anos (‘Spanish Eyes’, ‘I’m Going Bananas’, ‘Verás’, ‘Lo Que Siente Una Mujer’ e ‘Don’t cry for me, Argentina’ são outros exemplos). ‘Spanish Lesson’ chega a ser irritante em alguns momentos – a própria Madonna afirmou em entrevista recente que teve dúvidas se incluía ou não esta música na versão final do álbum, tomando a decisão favorável no último momento. Mas tem bons momentos, e como resistir ao chamado dela quando diz ‘Señorita, she just wants to fall in love’?
Há pontos fracos em “Hard Candy”, claro. ‘Incredible’ chega a ser atordoante, e penso que só o Guy deve ouvi-la com prazer (afinal, quem não gostaria de ter sua mulher declarando ‘the sex with you is incredible!’?). Com uma rima fraca e tanta distorção em cima, sua voz fica quase irreconhecível em alguns momentos. Descartável. Assim como ‘Beat Goes On’, a parceria com Kanye West. Esta faixa chegou a vazar pela internet no final do ano passado, e a versão anterior era muito melhor. Esta final, tal como está no álbum, carece de personalidade, dividida entre a ritmo dele e o desconforto dela.
Por fim há ‘Voices’, outro trabalho ao lado de Justin Timberlake, em que ela mais uma vez resolve encerrar com uma lição – repetindo uma tradição de anos, afinal, o que eram ‘Why’s it so Hard’, ‘In This Life’, ‘Mer Girl’, ‘Gone’, ‘Easy Ride’ ou ‘Like it or Not’? Agora ela começa com Justin perguntando: ‘quem é o mestre e quem é o escravo?’ (será uma dica para ele?), para prosseguir indagando: ‘é você que conduz o cão, ou ele que está lhe guiando?’
Assim como tem se repetido em álbuns anteriores recentes, algumas das melhores composições ficam de fora a versão final e chegam ao público somente em edições especiais, em singles ou mesmo pela internet. “Confessions on a Dance Floor” tinha, além das 12 ótimas faixas do cd normal, mais três excelentes canções: ‘Fighting Spirit’ (presente da edição especial), ‘History’ (que veio no single de ‘Jump’) e ‘Superpop’ (a melhor de todas, que permanece inédita, tendo vazado apenas pela internet). Em “Hard Candy” o “doce extra” é ‘Ring my Bell’ (nada a ver com a canção setentista de Anita Ward), que está apenas na versão especial do cd lançada no Japão. Vale a pena procurar para download, porque além do refrão ser ótimo, é uma música que merece ser descoberta.
Madonna começa ‘Ring my Bell’ afirmando: “if you wanna talk to me, that’s exactly what you gonna have to do: talk to me!” Ou seja, mesmo que seja esta faixa um ‘segredo’ do álbum, ela está disposta a chamar seu público para o confronto, para o debate e convidando-o a ser ouvido. Somos nós, quem a escuta, que irá determinar seus próximos passos. É o que ela busca, sintonia com ouvinte, para assim entregar seu melhor. Talvez “Hard Candy” não se posicione entre o Top 5 da cantora, mas há muito nele a ser degustado e aproveitado. E, depois disso tudo, nos resta esperar com ansiedade renovada pelo próximo passo dela.
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