Camelos Também Choram

Por: Thiago Ramari
categorias: Colunas, Limbo
Data: quinta-feira, 26 de junho de 2008

O título brasileiro do documentário mongol-alemão é verdadeiro. Camelos choram e, conforme defende o filme, também por razões emocionais. Assim como “A Marcha dos Pingüins” (2005), o longa, dirigido e roteirizado pela dupla Byambasuren Davaa e Luigi Falorni, busca humanizar uma espécie de animal distante do cotidiano da maioria dos espectadores. A tentativa antropomórfica faz com que a história se apresente carregada de delicadeza e sensibilidade, o que, em termos práticos, comove a muitos. Assim, ao fim do filme, os camelos deixam de ser vistos apenas como animais pouco conhecidos e, graças à relação empática que o documentário desenvolve, tornam-se mais próximos daqueles que assistem. Uma identificação é estabelecida.

Os protagonistas de “Camelos Também Choram”, ambientado no Deserto de Gobi, na Mongólia, são dois animais da espécie Camelus bactrianus: uma fêmea e o primeiro filhote dela, que o público vê nascer na primeira metade do filme. Como o parto da mãe-camelo é complicado, exigindo até a intervenção da família dona dos animais, a fêmea rejeita a cria. Toda vez que o bebê-camelo se aproxima para mamar, é escorraçado pela hostilidade da mãe. A conseqüência do desprezo é bem retratada em uma cena do longa: em um plano de conjunto, vê-se o filhote do lado esquerdo da tela, a mãe do lado direito e, entre os dois, uma grande faixa de areia do deserto. Preocupada, a família que toma conta dos dois busca em um ritual aparentemente isento de racionalidade a reconciliação entre os animais. A tentativa funciona e a mãe chora ao aceitar o filhote.

Em meio à sensibilidade, o filme elabora também duas críticas pontuais. A primeira é sobre a falsa idéia de que as soluções para os problemas enfrentados pelas pessoas devem se basear somente em teorias científicas, ignorando por completo a riqueza do senso comum. A segunda crítica discursa a respeito da televisão, inexistente na barraca da família dona dos camelos. Na opinião da Janchiv Ayurzana, um dos membros mais velhos, é um aparelho perigoso, capaz de tornar Dude, Guntee e Ugna, as crianças do grupo, em reféns das imagens. A sabedoria dele, uma pessoa que nunca teve um televisor por perto, é pouco considerada por Ugna, que, ao visitar a barraca de alguém que tem o aparelho, não desvia os olhos da tela. Ele fica fascinado com a programação de enlatados norte-americanos, transmitidos até no meio do deserto. Uma prova incontestável da grande rede que difunde, por todo o mundo, o american way of life.

O trabalho de Davaa e Falorni obedece à fórmula padrão de documentário, banindo a trilha sonora, entre outros recursos, a fim de atribuir aparência de realidade a cada uma das cenas. No entanto, como não se trata de um filme de temática polêmica, como “Tiros em Columbine” (2002), “Fahrenheit 11 de Setembro” (2004) e “Sicko – $O$ Saúde” (2007), todos do norte-americano Michael Moore, não seria condenável o uso de trilha sonora original. A utilização de músicas adequadas reforçaria a sensibilidade que o documentário pretende retratar e, provavelmente, conquistaria uma parcela maior de público. Não é à toa que o diretor Luc Jacquet assistiu de perto à comoção generalizada dos espectadores em torno de “A Marcha dos Pingüins”, que venceu, inclusive, o Oscar de Melhor Documentário em 2006. Ele acertou ao convidar a francesa Emilie Simon para compor canções para o filme, que fizeram sucesso e tornaram o nome da cantora, compositora e engenheira de som conhecido no mundo inteiro. 

“Camelos Também Choram” foi premiado em festivais. Segundo dados do The Internet Movie Database (IMDb), o documentário recebeu 15 indicações a prêmios e seis se converteram em troféus. Entre as vitórias se destacam as no Bavarian Film Awards (Alemanha), no Guild Of German Art House Cinemas (Alemanha) e no Karlovy Vary International Film Festival (República Tcheca).

CAMELOS TAMBÉM CHORAM (Die Geschichte vom weinenden Kamel. Alemanha, Mongólia, 2003. 87 minutos) Direção: Byambasuren Davaa, Luigi Falorni
Roteiro: Byambasuren Davaa, Luigi Falorni
Elenco: Janchiv Ayurzana, Chimed Ohin, Amgaabazar Gonson, Zeveljamz Nyam, Ikhbayar Amgaabazar, Odgerel Ayusch, Enkhbulgan Ikhbayar

 

Thiago Ramari Thiago Ramari é jornalista graduado pelo Centro Universitário de Maringá (Cesumar). É repórter de economia e política do jornal “O Diário do Norte do Paraná” e é também produtor e apresentador das duas versões do programa radiofônico “Cinema Falado” – um para a Rádio Universitária Cesumar (RUC) e outro para a CBN Maringá.
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Um comentário para “Camelos Também Choram”

  1. Antonio-Alberto Cortez em março 29th, 2009 at 13:14

    Realmente, Camelos também choram, é um filme muito bonito. Gostei. Entretanto, como e crítico e outras pessoas, suponho, senti falta de uma trilha sonora. Não só tornaria mais belo como também nos faria conhecer melhor um pouco de música daquela remota região da terra.

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