Calígula

Por: Fábio Morales
categorias: Cultura Pop, Por Trás do Pano, Teatro
Data: segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A peça “Calígula” mostra a ascensão e a queda do terceiro imperador romano Gaius Caesar Germanicus, que governou Roma entre 37 e 41, e que em nome de um desespero existencial matou companheiros, tomou suas mulheres, cometeu atrocidades e ainda nomeou seu cavalo senador. Foi o argelino Albert Camus (1913-1960) que escreveu, em 1938, o texto sobre a vida do homem que ficou conhecido por suas extravagâncias e absurda crueldade. A partir da morte de sua irmã – e amante – Drusilla, se dá o “start” para a loucura do governante, que percebeu que o mundo é injusto e desde então procurou viver de forma intensa, extrapolando qualquer limite. Um dos seus objetivos, inclusive, era alcançar a lua (literalmente) e enfrentar instituições poderosas, como família e religião, envolvendo todos a sua volta com palavras e sedução.

O texto de Camus foi adaptado por Dib Carneiro Neto, a pedido do diretor Gabriel Villela, que exigiu que fosse mantida a sintaxe do autor em detrimento do coloquialismo que poderia gerar uma melhor compreensão do texto. Mas isso não se faz necessário, e o resultado final é de grande qualidade. Quem esperava ver em “Calígula” algum reflexo do filme (de 1979) ou da outra encenação, que trazia Edson Celulari no papel principal, vai perder seu tempo: dessa vez não há nada de sexo explícito ou nudez. A peça contempla única e exclusivamente o livro de Camus. Gabriel Villela já acalentava há tempo o desejo de montar esse texto, e o fez como comemoração dos seus 50 anos. E quem foi presenteado foi o público, que recebeu um espetáculo fascinante, de fácil compreensão, envolvente, e cercado de muita competência. Gabriel deixa nessa peça o colorido comum de suas obras de lado e investe em uma encenação dominada pelo preto, vermelho e algumas cores sóbrias. O bonito cenário de J.C Serroni, com painéis com os atos da peça escritos, a bonita bola metálica que simboliza a lua, os rolos de papel e os tecidos que viram figurinos, os cones que viram espadas, é bastante funcional. Figurinos e adereços sóbrios e de acordo com o todo, uma excelente iluminação e belíssima trilha sonora fecham o competente conjunto técnico da produção.

Thiago Lacerda recebeu a peça que veio acompanhada de um convite do diretor para que ele fosse o personagem central. Villela afirmava que nenhum outro ator teria a força para viver tal criatura. Mais uma vez o encenador acertou, ao trazer da TV um insosso galã que no palco nos presenteia com uma interpretação esplendorosa. Desde o momento em que sai de dentro da bola metálica o ator mostra a que veio, cheio de tiques e gestos que poderiam cair para o exagero, mas que Lacerda os usa como uma escada para desenhar sua personagem. O olho no palco exprime tudo – não é o olho de Thiago, e sim o de Calígula! Que belo trabalho! O ator é visceral, está entregue e a platéia mais atenta percebe e ovaciona esse novo grande profissional de teatro que surge.

O resto do elenco é formado de velhos conhecidos do diretor. Magali Biff, que já esteve em “Esperando Godot”, desta vez encarna Cesônia, a amante do imperador. Ela é uma atriz bastante teatral (no pior sentido do termo), mas que faz aqui um bom trabalho. Os excelentes Pascoal da Conceição (Cherea), Rodrigo Fregnan (Hélicon), Jorge Emil (Mucius) e Ando Camargo estão impecáveis, com destaque para o último, que alivia um pouco o clima tenso com suas cômicas e atualíssimas tiradas. Fechando o time, Pedro Henrique Moutinho está um pouco inferior perto dos outros, no papel de Cipião.

Uma bela montagem de um clássico que privilegia o texto original, belas interpretações e uma segura direção. Ao invés de resvalar para o lado mais fácil de chamar público através da nudez ou do erotismo, “Calígula” e Thiago Lacerda já valem o espetáculo. Com um grandioso encerramento ao som de Cássia Eller cantando “Non, Je ne regrete rien” e muitos aplausos e gritos de bravo, saio arrepiado e encantado com essa mutação que o palco faz com um ator.

Calígula
Cotação: Muito bom
Em cartaz: Teatro Paulo Autran (Sesc Pinheiros), São Paulo.
Temporada: 08 de janeiro a 22 de fevereiro de 2009.

 

Fábio Morales é formado em turismo e hotelaria. É, também, um simples apaixonado e viciado em teatro. Escrever sobre uma coisa que me faz tão feliz é um prazer. Welcome to my life!
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Um comentário para “Calígula”

  1. Marcos Antonio Ali em fevereiro 14th, 2009 at 23:23

    Ola,
    Assisti caligula e sai encantado pelo espetáculo e pela belissíma trilha sonora.
    Só não consegui encontrar a discografia utilizada para a montagem do trilha sonora.
    Será que voce poderia ajudar?
    Obrigado

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