Caetanear o que há de ruim
Por: Reginaldo Pujol Filho
categorias: Cultura Pop, Isso não é um trailer
Data: terça-feira, 26 de maio de 2009
Vez que outra, o Caetano vem com uma versão de uma música brega, de uma música funk, de uma música-não-bacana e tenta bacanizar ela, e a crítica vem abaixo com o gênio dele, não é? E agora parece que isso tá virando moda. Já ouvi no rádio duas versões de Britney Spears, uma pelo Franz Ferdinand e outra por… E tem alguém fazendo Madonna rock, teve aquele disco de homenagens a Odair José e a coisa vai por aí afora. Não sei bem o que o rola com os músicos quando entram nessas. Se é uma diversão, se é uma excentricidade ou se é um sadismo de dizer ‘Rá, fala agora, vai ter que cantar Britney sim, meu amigão, e vai dizer que gosta se quiser ser legal’.
Tem gente que diz que na verdade não existe música ruim ou música boa na essência. Esses dias me disseram que é tudo timbre. Os timbres do Caetano, do instrumento escolhido fariam a letra brega ser de uma simplicidade maravilhosa que fala a todos com pureza quase infantil. Ou os mesmos timbres transformariam uma melodia grudenta em algo marcante, inesquecível que nos torna incapazes de não assobiar o que acabamos de ouvir.
Pois é.
Pois é.
Pois daí me veio a seguinte pergunta: será que essa lógica existe, por exemplo, no cinema? O Woody Allen já mostrou em “Melinda & Melinda” (cena abaixo) como tudo pode ser drama ou comédia, basta um olhar dramático ou cômico. Mas será que todo filme pode ser bom ou ruim? O Woody Allen, por exemplo, dirigindo o “O Casamento de Rachel” – que pra mim é o filme pavoroso do ano – suavizaria aquela escatologia psicológica, traria empatia pros personagens e faria daquele um filme necessário? Ou, o Sam Mendes conseguiria fazer do “Carandiru” uma coisa diferente daquele filme moralistóide e maniqueísta? Imagina o Clint Eastwood dirigindo um David Lynch: todo mundo entenderia, teria uma cronologia clara e uma narrativa linear? Mas já que é pra confundir, não posso deixar de querer saber como ficaria com o Michel Gondry dirigindo, sei lá, o “Gladiador”, ou “Uma Mente Brilhante”, que estão longe de serem filmes ruins, mas que acho que, voltando lá pros timbres, seria algo como fazer uma banda com Fred Zero Quatro, um DJ de Eletrônica e o Philip Glass e mandar eles gravarem “Chega de saudade”. Hein?
Tá, mas a brincadeira tá boa e não posso deixar de perguntar se a literatura é uma questão de timbre, ou talvez estilo, ou pegada. Claro que é fácil dizer que certos escritores têm um estilo marcante, inconfundível e que, às vezes, na linguagem, sustentam histórias que ficariam banais saindo de autores menos competentes. Certo, mas o Safran Foer ou o Gonçalo M. Tavares pegariam o plot de “O Alquimista” e, com seu estilo, seu jeito de escrever, fariam um grande romance? A Clarice Lispector pegaria qualquer exemplar de “Sabrina” e transformaria numa trama intimista, cheia de subentendidos e sensibilidades e epifanias? E o sintético Dalton Trevisan conseguira escrever o “Em busca do tempo perdido”? Porque talento não falta pra ele, mas é impossível imaginar que um cara que tem como obsessão limpar e limpar e limpar o texto até o essencial fizesse o que o Proust fez.
Não sei pra quem tá lendo isso, mas me parece um assunto interessante de se pensar. Se o timbre do Caetano salva tudo e tudo torna belo, existe essa figura do intérprete nas letras e nas telas? Existe o cineasta que tem a afinação exata pra deixar até pornochanchada elegante e cool? E o escritor com falsete nas mãos capaz de fazer do “Suave veneno do escorpião” uma obra fundamental?
Não sei, acho que não. Acho que tanto na literatura, quanto no cinema, a letra tem que estar no mesmo nível da música. Se o letrista não for bom, não vai adiantar o intérprete e a banda mandarem ver.
Mas, se você souber de algum cronista que tenha esse timbre mágico, repenso tudo e mando essa coluna pra ele escrever.






Putz, seria bacana se alguns diretores, cantores, artistas, políticos e jogadores fossem infalíveis.
Mas de Zé do Caixão a Biro Biro, de Sullivan e Massadas a José Sarney, de Reginaldo Pujol a Diego Rivera, ninguém será unanimidade, nem salvará o mundo. E isso é o melhor de tudo isso. Experimentar e ver erros mas também acertos.
Seja no vídeo no canto superior da tela do CineRonda, seja no mp3 remixado do Latino, ou na tela copiada de qualquer impressionista que ainda impressiona.
A diversidade também diverte.
Mas eu te entendo. Até pq “Hannibal” é o “Sexta-Feira 13″ do Anthony Hopkins, hehehe.
Não há como deixar o ‘feio’, o ‘de mau gosto’, ‘o sem talento’, ‘o medíocre’, ‘o grosseiro’, ‘o fútil’, ‘o banal’ em belo, gênio, talentoso, virtuoso, delicado, competente e raro, utilizando apenas um quesito como o ‘timbre’, metáfora do q. podem ser o ‘tudo’ q. seria necessário p/ uma possível transformação de embelezamento, seja na música, no cinema ou na literatura. Às vezes ‘esse’ tudo necessário inclui ‘um milagre’, e eles acontecem! Qdo. nada mais resta a fazer no sentido de ‘caetanizar’ é melhor assumir a posição e procurar fazer sucesso c/ o q. se tem, afinal a gosto p/ tudo, ainda bem! Se não fosse assim q. seriam de certas obras ‘ditas eróticas’?
Será q. dava p/ ‘caetanizar’ tb. pessoas? Será q. se meu ‘timbre’ de voz fosse mais doce, mais suave e especial, conseguiria transformar, por exemplo, um editor-autor sem coração e ardiloso em um homem amoroso e sincero?
É, meu caro Reginaldo, vc. faz bem em levantar tais questões. bjos.