“Baby Love”

Por: Robledo Milani
categorias: Cinéfilo, Colunas, Críticas, Película
Data: sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O mais curioso do comovente“Baby Love” é tentar entender o porquê deste título nacional! Afinal, trata-se de uma produção francesa, cuja denominação original é “Commes Les Autres”, ou seja, “Como os Outros”! E é justamente sobre isso que aborda o filme, de uma situação que poderia acontecer com qualquer um, mas que ganha um olhar todo diferenciado por estarmos tratando de personagens homossexuais. E o tema em questão não poderia ser mais universal: a vontade de formar família através da procriação. A diferença, claro, está na forma não convencional como a equação matemática ‘homem + mulher = bebê’ irá ser processada. Claro que um nome em inglês contribui nesta ‘universalidade’, mas será que se fosse em português a comunicação aqui no Brasil não seria mais eficiente?

Veterano da televisão francesa, o diretor e roteirista Vincent Garenq inspirou-se num fato verídico, acontecido com um amigo dele, para estrear no cinema com “Baby Love”. E a estrutura do filme, bastante tradicional, denuncia esta falta de prática com o meio. Nada, no entanto, que chegue a prejudicar o resultado final. Apenas fica uma sensação de que o importante aqui era somente contar uma história, porém sem grandes lances de originalidade ou invenção. Garenq sabe o que quer dizer, mas sem ter muita certeza de como. E se o longa já tem um público certo – homossexuais não conseguirão resistir, assim como qualquer espectador mais sensível – ele peca em não conseguir ampliar seu alcance de interesse, o que poderia ser perfeitamente alcançável. Estamos falando de um desejo humano, o da geração de descendentes, e esta vontade é completamente universal.

Manu e Philippe formam um casal há anos, exemplo para a família e amigos. Eles são muito parecidos – ambos são profissionais liberais (um é médico, o outro advogado), estão em torno dos 40 anos, apreciam artes, são apegados aos parentes e levam vidas tranqüilas – não fosse por um pequeno detalhe: Manu quer ter um filho, enquanto que Philippe é contrário à ideia. Como o primeiro está decidido e pretende levar adiante o plano de adotar uma criança, os dois acabam se separando. Mesmo sozinho, Manu segue firme em seu propósito, que sofre logo em seguida outro baque: ele tem seu pedido recusado ao revelar que é gay. Desanimado, encontra uma nova chance ao conhecer uma jovem argentina, Fina, que aceita a proposta de ser ‘barriga de aluguel’ para ele. Mas nada será tão simples: enquanto ele passa a sentir cada vez mais a falta do antigo amante, ela não conseguirá evitar a atração que começa a sentir pelo novo amigo.

Um dos principais méritos de “Baby Love” é o seu trio de protagonistas, todos muito seguros em seus papéis. Lambert Wilson, nome importante do cinema francês e com desempenhos de destaque em filmes como “Medos Privados em Lugares Públicos” (2006), além de ser presença constante no cinema americano, como visto em “Matrix Reloaded” (2003), “Mulher-Gato” (2004), “Sahara” (2005), “Um Plano Perfeito” (2007) e “Missão Babilônia” (2008), dá vida a um Manu delicado, porém másculo, escapando dos trejeitos mais óbvios. Outro que foge fácil do clichê é Pascal Elbé, como Philippe. Os dois formam um casal plenamente convincente, distante do riso fácil e da piada constrangedora. São dois homens, que amam um ao outro, e que estão enfrentando um momento bastante decisivo no relacionamento que construíram. A espanhola Pilar López de Ayala (“Alatriste”, 2006) completa o trio, como uma Fina repleta de nuances, capaz de alternar momentos de grande entrega com outros de surpresa, ilusão e até comovente tristeza.

“Baby Love” não é o melhor filme gay já feito, principalmente porque seu enredo é sábio o suficiente para ir além do gueto. É uma produção familiar, que fala de assuntos comuns a todos e perfeitamente identificável. Em tempos em que muito se fala sobre casamento gay, é importante lembrar da necessidade de conquista de outros direitos, como o da formação de família. E num mundo tão carente de auxílio e carinho, é quase incompreensível como leis e diretrizes ultrapassadas ainda possam impedir que o afeto e o amor chegue a quem mais necessita. Respeito é fundamental, e ele vai muito além de questões como sexo, religiosidade ou classe social. E neste ponto este belo filme deixa bem clara a sua mensagem.

Commes Les Autres, França, 2008
De Vincent Garenq
Com Lambert Wilson, Pascal Elbé, Pilar López de Ayala

(nota 8)

 

Robledo Milani é crítico de cinema, formado em Comunicação Social pela UFRGS. Já teve textos publicados em jornais, revistas e em diversos sites pela internet, além de ter trabalhado em rádio e em televisão. Robledo Milani é membro fundador da ACCIRS, Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul.
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