Avenida Q

Por: Fábio Morales
categorias: Cultura Pop, Por Trás do Pano, Teatro
Data: segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Em um primeiro momento, “Avenida Q” causa certo estranhamento por não saberem, os mais desinformados, ao certo sobre o que se trata. Quando vemos os bonecos então, remetemos ao antigo Vila Sésamo ou aos simpáticos Muppets. Pois esqueça tudo imediantamente! Os bonecos desse novo espetáculo fariam Garibaldo e Caco corarem com suas tiradas politicamente incorretas e, definitivamente, este não é um show para crianças.

“Avenida Q” é mais um musical da competentíssima dupla Charles Moeller e Cláudio Botelho que aporta na cidade. Eu, particularmente, não sou um fã do gênero, e costumo achar a maioria das grandes produções do gênero datadas, piegas e um tanto arrastadas. Definitivamente, no entanto, não é o caso deste, que estreou no ano de 2004 na Broadway surpreendendo a todos e tornando-se o maior sucesso daquela temporada. Orçado em três milhões, a peça tem um único cenário, o de um prédio na decadente Avenida Q. Faz uso de recursos de vídeo, e os deliciosos e bem confeccionados bonecos são manipulados brilhantemente por todos os atores.

Esta é a história do jovem Princeton, que precisa encontrar um rumo em sua vida. Sua trajetória se cruza com a dos moradores dessa espelunca. Há o casal Brian e JapaNeusa, o zelador Gary Coleman, que fez sucesso na infância e foi esquecido quando cresceu, a doce Kate Mostra, que torna-se objeto de desejo do jovem Princeton, Rod, o gay enrustido, e seu amigo Nick. Além do monstro Trekkie, um viciado em pornografia digital, ainda circulam por lá a dançarina Lucy Devassa e os impagáveis Ursinhos do Mal, entre outros. O musical tem um viés totalmente politicamente incorreto. Eles falam de forma não muito “correta” de todas as minorias: gays, negros, judeus, desempregados, imigrantes… Os bonecos são usados para que essas barbaridades, que são ditas sem receios, pareçam mais suaves através deles. A presença deles em cena poderia ser uma armadilha se não fossem manipulados com a perfeição que são. Há momentos que parece que o ator está imitando o boneco, e todos os 16 personagens são iguais aos originais americanos.

O elenco é um dos grupos mais homogêneos e talentosos que se reuniu nos últimos tempos em musicais no país. Todos cantam, dançam, interpretam e ainda manipulam os bonecos com muito talento. André Dias e Sabrina Korgut, os mais exigidos, são de um talento ímpar. Ela, então, ao ter que às vezes fazer um dialogo entre duas personagens diferentes, dá show! Vocal e expressão corporal impecáveis! Claudia Netto e Renato Rabelo não manuseiam os bonecos, mas se destacam pela comicidade – principalmente ela, quando aparece nos trajes engraçadíssimos da deliciosa JapaNeusa! Os outros atores – Fred Silveira, Mauricio Xavier, Gustavo Klein e Renata Ricci – são igualmente talentosos e competentes (estes dois últimos fazem os deliciosos Ursinhos do Mal).

O conjunto técnico, como se poderia esperar de um espetáculo vindo da Broadway, encontra aqui profissionais à altura. Cenários, iluminação e, principalmente, figurinos de encher os olhos. A direção de Moeller é dinâmica, rica, conduz bem os atores e as canções e ainda mantêm o ritmo do espetáculo sempre lá em cima.

A versão original ganhou três prêmios Tony (o Oscar do teatro norte-americano), e aqui no Brasil recebeu cinco indicações ao Shell. “Avenida Q” é politicamente incorreto e toca como ninguém na ferida do preconceito que quase todos têm em relação a algo. Com músicas como “E se ele for gay” e “Todo mundo é meio racista”, as verdades são ditas de uma forma engraçada, mas direta. Esse espetáculo é um suspiro, uma renovação nesse meio dos musicais. Sai aquele cheiro de mofo e canções arrastadas e entra o dinamismo, o humor inteligente, a vivacidade e a cara de pau dessa deliciosa “Avenida Q”!

“Avenida Q”
Cotação:***** (Excelente)
Em cartaz no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo, até o dia 29 de Novembro.

Fábio Morales é formado em turismo e hotelaria. É, também, um simples apaixonado e viciado em teatro. Escrever sobre uma coisa que me faz tão feliz é um prazer. Welcome to my life!
Mande um mail para para Fábio | Veja outros textos assinados por Fábio Morales

Um comentário para “Avenida Q”

  1. Thiago em outubro 7th, 2009 at 18:31

    Sem nada a acrescentar ao que foi escrito, vale reforçar que cada centavo do ingresso é bem gasto e te faz sorrir de modo sincero e espontâneo. No palco estão personagens reais e em alguns momentos nos esquecemos que os bonecos estão sendo controlados, ganhando vidas próprias.
    Original, muito bem adaptado e divertido, mostrando a verdade e nos fazendo sorrir.

    Quem tiver a chance não a perca!

Deixe um comentário

XHTML: Você pode usar estas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Twitter


Vídeo da Semana

Trailer do filme "Karate Kid" em HD


Últimas


 

Top 10 Brasil – 17/05/2010

  • 01. “Robin Hood” (Universal)
    Estreia: 396.440
    Público Total: 396.440
  • 02. “Alice no País das Maravilhas” (Disney)
    4ª semana: 365.070
    Público Total: 3.399.875
  • 03. “Homem de Ferro 2″ (Paramount)
    3ª semana: 344.416
    Público Total: 2.476.338
  • 04. “Chico Xavier, O Filme” (Downtown/Sony)
    7ª semana: 67.232
    Público Total: 3.255.095
  • 05. “A Hora do Pesadelo” (Warner)
    2ª semana: 60.970
    Público Total: 229.706
  • 06. “O Preço da Traição” (Playarte)
    Estreia: 31.181
    Público Total: 33.580
  • 07. “Missão Quase Impossível” (Imagem)
    2ª semana: 26.332
    Público Total: 98.186
  • 08. “Tudo Pode Dar Certo” (Califórnia)
    3ª semana: 16.460
    Público Total: 106.832
  • 09. “Caçador de Recompensas” (Sony)
    5ª semana: 12.490
    Público Total: 597.787
  • 10. “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” (Imagem)
    Estreia: 12.159
    Público Total: 12.159