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Um retrato contraditório

quinta-feira, novembro 13th, 2008

A adaptação cinematográfica de uma obra literária jamais será completamente fiel a cada uma das palavras impressas nas páginas do livro. O longa O Retrato de Dorian Gray” (1945) obedece aos dois extremos – o da fidelidade literal e o da infidelidade deliberada -, tornando-o contraditório em uma comparação de argumentos livro versus filme.

Por um lado, essa concepção da frustração esperada, mais difundida atualmente, desestabiliza a opinião dos espectadores que insistem na fidelidade máxima. Por outro, invertendo o curso, atribui também descrédito aos cineastas que optam deliberadamente por reescrever trechos da obra original, avançando para além da imprescindível necessidade ditada pelas diferenças entre as linguagens do cinema e da literatura e pelo próprio ponto de vista interpretativo.

Baseado na obra homônima do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), o longa mantém alguns diálogos idênticos e, em contrapartida, abre mão do retrato de uma característica importante que cerceia o relacionamento entre os personagens centrais – o jovem Dorian Gray (interpretado por Hurd Hatfield), o aristocrata Lord Henry Wotton (George Sanders) e o artista plástico Basil Hallward (Lowell Gilmore).

Assim como no livro, o roteirista e diretor Albert Lewin retrata, por meio das frases ditas por Wotton, a paixão pelo hedonismo – embora a obra tenha sido lançada em 1891, a busca incessante pelo prazer continua ocupando lugar de destaque entre a juventude atual. O discurso de Wilde, que, no livro, faz-se também ouvido por meio da voz de Wotton, é pró-liberal e sustenta toda a influência que o personagem exerce sobre o até então inocente Gray, tornando-o corrupto aos olhos dos outros. Nesse sentido, a interpretação de George Sanders é exata. O ator veste o papel do aristocrata nato, que se dedica à estática arte de nada fazer, a não ser observar as pessoas e comentar as atitudes delas, com certo teor de fealdade.

No entanto, entre os pontos importantes não explorados pelo filme está o homoerotismo – uma das peças-chave do discurso liberal da obra original, ainda mais considerando que Wilde mantinha relacionamento com o jovem Alfred Douglas, mesmo após casar, em 1884. Na literatura, Wotton e Hallward alimentam profunda admiração pela beleza de Gray. Eles o elogiam todo o tempo, ressaltam-lhe as características físicas e psicológicas que o tornam tão encantador e, por diversas vezes, o discurso do escritor faz o leitor crer que a admiração se estende para o interesse afetivo e sexual. A negligência em relação a este ponto não poderia deixar de depor contra o próprio filme, que, contraditoriamente, incentiva o hedonismo, mas também se revela essencialmente conservador ao banir o retrato do homoerotismo.

Entre as mais de 250 páginas do livro, são vários os trechos que ressaltam essa característica. Uma delas, logo no início, ocorre quando Wotton encontra Gray pela primeira vez, no atelier de Hallward. Na tradução de Oscar Mendes, o momento é narrado da seguinte maneira: “Lorde Henry fitava-o. Sim, era, na realidade, maravilhosamente belo, com seus lábios rubros finamente traçados, seus olhos francos e azuis, e sua cabeleira crespa e loura. Havia algo em seu rosto que inspirava a imediata confiança. Ali estava todo o candor da juventude, unido à pureza ardente da adolescência. Não era sem razão que Basílio Hallward o adorava”.

A omissão do homoerotismo pode ser interpretada até como forma de tornar o filme mais socialmente aceito à época do lançamento. Se, em 2005, “O Segredo de Brokeback Mountain” foi considerado ousado por tratar a homossexualidade de forma aberta, seis décadas antes seria motivo para represálias escandalizadas, mesmo que se restringisse à sugestão de uma admiração platônica entre homens, como ocorre no livro “O Retrato de Dorian Gray”. Invertendo o argumento original, o roteirista e diretor do filme acrescentou até um segundo pedido de casamento, feito pelo protagonista. No caso, para a sobrinha do artista plástico, Gladys Hallward, interpretada por Donna Reed, que inexiste no livro. No romance de Wilde, o único pedido de casamento feito por Gray é para a atriz Sibyl Vane, que também é retratado no longa metragem.

Em 1946, “O Retrado de Dorian Gray” venceu o Oscar de Melhor Fotografia em Preto e Branco e concorreu nas categorias de Melhor Atriz Coadjuvante (Angela Lansbury, no papel de Sibyl Vane) e Melhor Direção de Arte em Preto e Branco. Após o filme de Albert Lewin, a obra de Wilde ganhou outras três adaptações: uma em 1973 para a televisão, dirigida por Glenn Jordan, e outras duas para o cinema, em 2004 e em 2006, com a direção de David Rosenbaun e Duncan Roy, respectivamente.

O RETRADO DE DORIAN GRAY (The Picture Of Dorian Gray, EUA, 1945, 110 minutos)
Direção: Albert Lewin
Roteiro: Albert Lewin
Elenco: Angela Lansbury, Donna Reed, George Sanders, Hurd Hatfield, Lowell Gilmore

Camelos Também Choram

quinta-feira, junho 26th, 2008

O título brasileiro do documentário mongol-alemão é verdadeiro. Camelos choram e, conforme defende o filme, também por razões emocionais. Assim como “A Marcha dos Pingüins” (2005), o longa, dirigido e roteirizado pela dupla Byambasuren Davaa e Luigi Falorni, busca humanizar uma espécie de animal distante do cotidiano da maioria dos espectadores. A tentativa antropomórfica faz com que a história se apresente carregada de delicadeza e sensibilidade, o que, em termos práticos, comove a muitos. Assim, ao fim do filme, os camelos deixam de ser vistos apenas como animais pouco conhecidos e, graças à relação empática que o documentário desenvolve, tornam-se mais próximos daqueles que assistem. Uma identificação é estabelecida.

Os protagonistas de “Camelos Também Choram”, ambientado no Deserto de Gobi, na Mongólia, são dois animais da espécie Camelus bactrianus: uma fêmea e o primeiro filhote dela, que o público vê nascer na primeira metade do filme. Como o parto da mãe-camelo é complicado, exigindo até a intervenção da família dona dos animais, a fêmea rejeita a cria. Toda vez que o bebê-camelo se aproxima para mamar, é escorraçado pela hostilidade da mãe. A conseqüência do desprezo é bem retratada em uma cena do longa: em um plano de conjunto, vê-se o filhote do lado esquerdo da tela, a mãe do lado direito e, entre os dois, uma grande faixa de areia do deserto. Preocupada, a família que toma conta dos dois busca em um ritual aparentemente isento de racionalidade a reconciliação entre os animais. A tentativa funciona e a mãe chora ao aceitar o filhote.

Em meio à sensibilidade, o filme elabora também duas críticas pontuais. A primeira é sobre a falsa idéia de que as soluções para os problemas enfrentados pelas pessoas devem se basear somente em teorias científicas, ignorando por completo a riqueza do senso comum. A segunda crítica discursa a respeito da televisão, inexistente na barraca da família dona dos camelos. Na opinião da Janchiv Ayurzana, um dos membros mais velhos, é um aparelho perigoso, capaz de tornar Dude, Guntee e Ugna, as crianças do grupo, em reféns das imagens. A sabedoria dele, uma pessoa que nunca teve um televisor por perto, é pouco considerada por Ugna, que, ao visitar a barraca de alguém que tem o aparelho, não desvia os olhos da tela. Ele fica fascinado com a programação de enlatados norte-americanos, transmitidos até no meio do deserto. Uma prova incontestável da grande rede que difunde, por todo o mundo, o american way of life.

O trabalho de Davaa e Falorni obedece à fórmula padrão de documentário, banindo a trilha sonora, entre outros recursos, a fim de atribuir aparência de realidade a cada uma das cenas. No entanto, como não se trata de um filme de temática polêmica, como “Tiros em Columbine” (2002), “Fahrenheit 11 de Setembro” (2004) e “Sicko – $O$ Saúde” (2007), todos do norte-americano Michael Moore, não seria condenável o uso de trilha sonora original. A utilização de músicas adequadas reforçaria a sensibilidade que o documentário pretende retratar e, provavelmente, conquistaria uma parcela maior de público. Não é à toa que o diretor Luc Jacquet assistiu de perto à comoção generalizada dos espectadores em torno de “A Marcha dos Pingüins”, que venceu, inclusive, o Oscar de Melhor Documentário em 2006. Ele acertou ao convidar a francesa Emilie Simon para compor canções para o filme, que fizeram sucesso e tornaram o nome da cantora, compositora e engenheira de som conhecido no mundo inteiro. 

“Camelos Também Choram” foi premiado em festivais. Segundo dados do The Internet Movie Database (IMDb), o documentário recebeu 15 indicações a prêmios e seis se converteram em troféus. Entre as vitórias se destacam as no Bavarian Film Awards (Alemanha), no Guild Of German Art House Cinemas (Alemanha) e no Karlovy Vary International Film Festival (República Tcheca).

CAMELOS TAMBÉM CHORAM (Die Geschichte vom weinenden Kamel. Alemanha, Mongólia, 2003. 87 minutos) Direção: Byambasuren Davaa, Luigi Falorni
Roteiro: Byambasuren Davaa, Luigi Falorni
Elenco: Janchiv Ayurzana, Chimed Ohin, Amgaabazar Gonson, Zeveljamz Nyam, Ikhbayar Amgaabazar, Odgerel Ayusch, Enkhbulgan Ikhbayar

 

Nordkraft

quinta-feira, junho 12th, 2008

Nordkraft - Signe Egholm OlsenMais interessante que “Trainspotting – Sem Limites” (1996), mas não tão envolvente quanto “Réquiem Para Um Sonho” (2000). É o meio termo entre os dois filmes que define o dinamarquês “Nordkraft” (2005), dirigido por Ole Christian Madsen. Com argumento igualmente focado no retrato do jovem viciado em drogas, o título não é conhecido pelo público médio no Brasil, mas chamou a atenção da crítica no Robert Festen, festival de cinema sediado em Copenhague, capital da Dinamarca. Lá, em 2006, a produção levou para casa os troféus de Melhor Ator Coadjuvante (Thure Lindhardt), Melhor Canção (“Please You”, do The Raveonettes), Melhor Maquiagem e Melhor Som.

O filme começa apresentando ao espectador três personagens, cada um pertencente a um núcleo próprio, mas todos interligados pelo consumo de entorpecentes. A primeira é Maria (interpretada por Signe Egholm Olsen), também conhecida como “dama do tráfico”, pelo transporte de haxixe que realiza freqüentemente entre as cidades de Christiania e Aalborg, na Dinamarca. O segundo é Allan (Claus Riis Østergaard), que, depois de superar o vício em cocaína, resolve seguir o padrão de vida aceito pela sociedade. Por fim, Steso (Thure Lindhardt), um dependente químico assumido o suficiente para negar qualquer tratamento.

No Brasil, o cinema dinamarquês só não é totalmente desconhecido porque os cineastas Lars Von Trier e Thomas Vinterberg ganharam o mundo com o movimento Dogma 95, em filmes como “Festa de Família” (1998) e “Os Idiotas” (1998). Mas as determinações desse estilo, conhecido pelas várias restrições técnicas em prol de um trabalho mais realista e menos comercial, não podem ser aplicadas a “Nordkraft”, que, em suma, repete a estética visual alucinógena de “Réquiem Para Um Sonho” – por isso, mais interessante que “Trainspotting”. Essa característica, aliada ao trabalho realizado pelo departamento de maquiagem e às atuações consistentes do elenco, dá ao filme peso verossímil em cada seqüência.

Por outro lado, a provável influência que o trabalho de Darren Aronofsky gerou sobre o de Madsen não é visto de forma bem-sucedida no roteiro, já que “Nordkraft” perde tempo em relatar três romances paralelos, um em cada núcleo – Maria mora com o namorado Asger (Thomas L. Corneliussen), outro viciado, por quem alimenta certo desprezo; Allan tenta, na reconstrução da própria vida, atender às exigências morais da nova namorada, Maja (Signe Vaupel), que representa a pressão social que há sobre ex-viciados; Steso, por sua vez, sofre com o rompimento com Tilde (Pernille Vallentin Brandt), uma alcoólatra que não entende o vício do ex-namorado. Inevitavelmente, a exploração demasiada desses pontos no roteiro desvia a atenção do espectador e compromete o retrato que o filme se propõe a elaborar. É como se a história perdesse o foco em alguns momentos e os três personagens centrais canalizassem abstrações para os relacionamentos mal resolvidos que vivem. Por conta disso, o filme pode, em parte, ser também considerado um romance dramático.

Nordkraft - Thure LindhardtComo é de praxe em produções que têm as drogas como personagens onipresentes, há seqüências de impacto para comover o espectador e revelar como o viciado se torna refém da própria dependência – uma espécie de coação moral justificada. Em “Nordkraft”, essa faceta autodestrutiva é interpretada de maneira singular pelo ator Thure Lindhardt, recentemente visto também em “Na Natureza Selvagem” (2007). Não é à toa que foi premiado no Robert Festen e é, hoje, uma das boas promessas dinamarquesas em atuação.

NORDKRAFT (Nordkraft, Dinamarca, 2005, 125 minutos)
Direção: Ole Christian Madsen
Roteiro: Ole Christian Madsen, Bo Hr. Hansen e Jakob Ejersbo
Elenco: Claus Riis Østergaard, Pernille Vallentin Brandt, Signe Egholm Olsen, Signe Vaupel, Thomas L. Corneliussen e Thure Lindhardt

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