“Austrália”
Por: Robledo Milani
categorias: Cinéfilo, Colunas, Críticas, Especiais, Oscar 2009, Película, Resenhas
Data: quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
O principal problema de “Austrália” – e veja bem, eles são muitos – é a ambição. Este filme é o perfeito exemplo da ousadia de um realizador visionário que naufragou em sua própria pretensão, não conseguindo entregar para o espectador nem uma sombra daquilo que o projeto prometia no papel. O quarto longa dirigido por Baz Luhrmann tinha tudo para ser um dos maiores épicos jamais produzidos na história do cinema mundial – grandes astros como protagonistas, um romance à frente do seu tempo, um fundo histórico poderoso, a construção de uma nação como cenário, locações com visuais fantásticos e, na condução, um cineasta que já comprovou em mais de uma ocasião ter talento e competência para uma tarefa desta magnitude. Porém, o que vemos na tela é o completo oposto disso tudo: um retumbante fracasso. E simplesmente pela incapacidade em se acertar o tom exato em que esta história merecia ser contada.
Em mais de um momento “Austrália” se aproxima do clássico “O Mágico de Oz” (1939), como se só pela similaridade fosse possível conquistar alguns créditos extras. Acompanhamos um menina ingênua que é tirada do seu lar e levada para um lugar mágico, repleto de perigos, mas mesmo assim inevitavelmente fascinante. Lá ela cresce, aprende e sobrevive, conquistando amigos e obtendo graças e desejos. A Oz moderna, portanto, seria a mística Terra dos Cangurus, um país distante de tudo, mas que arde em anseios, sonhos e esperanças. E é para lá que vai a nossa mocinha, uma inglesa que terá seu destino completamente alterado a partir do momento em que colocar os pés neste ‘novo mundo’. A arrogante aristocrata, ao chegar, encontra o marido morto. Sem poder desistir, decide tocar os negócios adiante. Não sem ajuda, claro, de um forte braço masculino – um proveniente capataz, um homem sem nome, rebelde e solitário, e que só pela luz radiante dos cabelos loiros dela irá se render. Só que não por muito tempo.
Luhrmann, autor do argumento original, não conseguiu desenvolver sozinho o roteiro de “Austrália”, e para isso chamou mais três colaboradores: Stuart Beattie (“Piratas do Caribe”), Ronald Harwood (premiado com o Oscar por “O Pianista”) e o novato Richard Flanagan. Talvez venha justamente desta disparidade de experiências a irregularidade do texto apresentado. A impressão, assim que termina, é de que foram vistos dois ou três filmes, e não apenas um (as quase três horas de duração não ajudam em nada neste sentido!). O início, desastroso – de longe a pior de todas as partes – é a descoberta, o exotismo, o histrionismo. O tom frenético assumido aqui não se repete posteriormente, mas é suficiente para causar aquela má primeira impressão – e que dificilmente será relegada. Depois temos o desafio – vencer o vilão número 1 e entregar o gado do outro lado do país. Ufa, situações de desespero são superadas, vitórias são obtidas e tudo se encaminha para o final feliz. Ou não? Afinal, há muito mais pela frente! Sim, porque depois temos o romance, a vida de casal e a frustração amorosa. Mais adiante, a guerra, o vilão número 2, as covardias, as diferenças, os descasos e desencontros. Mas é preciso um final feliz – ou quase isso – e, encerrando tudo, o misticismo local, que esteve por trás de todos os acontecimentos desde o início e que somente agora se mostra como o fim e a origem de tudo que os cerca.
Nicole Kidman já foi a maior atriz da atualidade. Ela fez drama (“As Horas”, que lhe deu o Oscar), comédia (“Tudo por um Sonho”), aventura (“Batman Eternamente”), suspense (“Os Outros”), musical (“Moulin Rouge”), romance (“Cold Mountain”) e até thriller psicológico (“De Olhos Bem Fechados”). Ou seja, tinha tudo para conquistar o mundo. Mas foi longe demais, não soube ser humilde para reconhecer seus pontos fracos e evitar certas apostas. E hoje temos um arremedo que nem mesmo fisicamente consegue ser convincente. A expressão praticamente não muda, o porte está alterado, a voz não encontra o caminho natural para cada fala. Hugh Jackman, por sua vez, é um caso bem diferente. Após despontar como o herói Wolverine da trilogia “X-Men”, mostrou um potencial insuspeito em produções que lhe exigiam mais técnica do que instinto (“Kate & Leopold”, “Fonte da Vida”, “O Grande Truque”) e se confirma hoje como um astro de primeira grandeza. O sucesso de um produto como este seria ótimo para ele. Mas os desafios que aqui encontra estão muito aquém de suas já reveladas capacidades. Ok, ele é atraente (foi eleito o Homem mais Sexy do Mundo pela Revista People), simpático, um legítimo galã. Mas sabemos que ele pode muito mais do que desfilar em trajes úmidos e disputar corridas em cavalos. No final, a única surpresa acaba sendo o pequeno Brandon Walters, o narrador da trama, um mestiço aborígene que simboliza por si só todas as contradições do seu país. O menino é de um carisma absurdo, e o desastre só não é maior devido à presença dele.
Fracasso de público nos Estados Unidos, “Austrália” só se salvou financeiramente no resto do mundo, e isso se deve principalmente aos seus elementos que representam arquétipos padrão do gênero. Com um custo de US$ 130 milhões, faturou menos de US$ 50 milhões na América, mas a contabilidade geral o aproximou dos US$ 180 milhões. Isso aliviou um pouco as apostas ao redor, mas de nada adiantou para o destino crítico. Apontado como um provável forte candidato ao Oscar 2009 nas principais categorias, acabou recebendo apenas uma indicação, na categoria de Melhor Figurino (Catherine Martin, a figurinista responsável, é esposa de Luhrmann e já possui duas estatuetas douradas em casa, pelo figurino e pela direção de arte do projeto anterior de ambos, o já citado “Moulin Rouge”). Lento, tedioso, equivocado, ousado e frustrante, “Austrália” levou sete anos para ser feito, mas certamente não levará sete minutos para ser esquecido. Quer ver Nicole Kidman e Hugh Jackman como um casal encantador numa produção australiana e que realmente irá transformar vidas e emocionar como poucas outras? Então alugue “Happy Feet” (os dois são os dubladores dos pais do protagonista) e divirta-se, porque aqui sim será possível encontrar alguma animação digna de registro!
Australia, Austrália/EUA, 2008
De Baz Luhrmann
Com Nicole Kidman, Hugh Jackman, David Wenham, Bryan Brown, Jack Thompson, Brandon Walters
(nota 3)





Me desculpe mas não concordo com você.Amei o filme,é ingênuo,romântico,forte,emocionante.Hugh provou que sabe fazer muito mais do que wolverine(que pra mim também é ótimo).Kidman está em ótima forma,e ficou delicamente sensual,sem ser apelativa.Amor forte,verdadeiro e surreal,é disso que o mundo precisa.Um abraço.