As pessoas à margem da sociedade são mais interessantes

Por: Alexandre Derlam
categorias: A Ideia do Documentário, Colunas
Data: quarta-feira, 24 de junho de 2009

Essa declaração do cineasta Alan Parker, em 1987, sempre ficou registrada na minha mente. Em muitos momentos nestes 22 anos lembrei da frase. Muitos mesmo. Mas, meu caro leitor, você quer saber por que estou escrevendo sobre isso agora? Onde quero chegar? Ok. Acontece que há uma semana consegui finalmente assistir ao documentário “Grey Gardens”. Durante três anos aguardei ansiosamente para ver este filme. O que me fez esperar e me motivou tanto? A obra dos irmãos Maysles (Albert e David, do ótimo “Caixeiros Viajantes”) é cinema direto puro. Eu tinha lido em uma revista que se tratava “de um modelo de documentário onde os realizadores participaram diretamente, sem isso prejudicar, ou mudar o rumo dos acontecimentos”. Isso já bastava para meu interesse.

Em minha vida conheci pessoas com notáveis lembranças e fatos pitorescos, (principalmente ex-jogadores de futebol, músicos, artistas) que viveram seus últimos dias longe de flashes e da glória de outrora, resignados ou não, portadores de admiráveis vidas e magníficas histórias. Eles viveram seus momentos, tiveram seu tempo. Alguns foram esquecidos. Outros são lembrados em datas específicas. Quando finalmente consegui a cópia do filme, percebi estar diante de algo que não parece ter sido feito nos anos 70. Tanto pela linguagem, como pela originalidade do tema. Os irmãos Maysles já sabiam o que Alan Parker ensinou. E, melhor que isso, colocaram em prática a teoria da margem da sociedade.

Em 1973, um escândalo ocupou as manchetes dos jornais americanos. Autoridades locais tentaram expulsar mãe e filha de uma mansão decadente no balneário de luxo de East Hampton, alegando falta de condições sanitárias. Uma notícia banal, não fossem elas as ex-socialites Edith Bouvier Beale e sua filha Edie, respectivamente tia e prima de Jacqueline Kennedy Onassis. Dois anos depois, Big Edie e Little Edie, como eram conhecidas, abriram as portas para os documentaristas Albert e David Maysles. Câmera e microfone em punho, eles flagraram excentricidades de duas mulheres que viviam isoladas há mais de 20 anos e travavam diálogos dignos dos melhores textos de Tennessee Williams e Eugene O’Neil. As duas perderam o contato com a realidade na medida em que viram sua riqueza e status sendo diminuídos, e acabaram sendo redescobertas pelo mundo quando Jackie se transformou na Primeira-Dama dos Estados Unidos e decidiu partir em socorro das parentes quando a história destas começou a ser veiculada pelos jornais.

“Grey Gardens” apresenta um revelador e ao mesmo tempo desconfortável panorama da vida destas duas mulheres. Confesso que, durante os primeiros 10 ou 15 minutos, fiquei um tanto aborrecido. Imaginava que não agüentaria ficar ouvindo as conversas e lembranças daquelas “duas malucas”. Pois não é que, quando você percebe, esse momento já passou? Elas nos cercam com suas fantasias, chocam com seu total desapego pelo mínimo de limpeza e higiene, pela impossibilidade de terem vivido um passado glamouroso, de alta sociedade, das suas confusas e chocantes versões sobre as mesmas histórias. Trata-se de um filme difícil. Por vezes engraçado. E acima de tudo chocante e muito visceral.

A relação entre mãe e filha é norteada pela dependência. Elas passam a maior parte do tempo juntas na casa. Os cineastas adotaram um método que pode ter inspirado (quem sabe) os criadores do Big Brother. Acompanharam por seis semanas o dia-a-dia delas, entre muitas crises e brigas, algumas canções, refeições e uma incômoda festa de aniversário. Boa parte de “Grey Gardens” está nas diversas fantasias da filha Edie. Uma mulher de 56 anos que voltou para a casa da mãe e passa o tempo todo falando em encontrar um marido e sair de lá. Nela está o reflexo de uma família que ruiu. Edie não tem capacidade de exercer qualquer tipo de individualidade. E muito menos você acredita que ela fará alguma coisa para mudar a vida. Mas, ainda assim, ela monopoliza nossa atenção com sua educação fina, seu modo de vestir com extravagantes composições, suas tiradas literárias e um número musical que é, por si só, uma atração e tanto.

São muitas as perguntas que vão surgindo. Como duas mulheres podem viver daquele jeito? O que aconteceu com elas? Porque estão sozinhas? Parte das respostas está nas imagens surreais da casa aos pedaços, tomada por uma dúzia de gatos sempre ao lado da matriarca, comendo e bebendo na cama. Ao lixo. A uma podridão e sujeira inimagináveis. A uma relação estabelecida entre elas de amor e ódio com palavras ásperas, duras, de rancor, mágoa e algumas – raras – de incentivo.

Os cineastas realizaram um trabalho tremendamente à frente do seu tempo. Foram corajosos, originais e até visionários. “Grey Gardens” é filme de gente grande. Um documentário com ingredientes fartos para ficção. Tanto que se tornou um recente telefilme no Canal HBO com o mesmo título. Baseada na história real, Drew Barrymore viveu Edie e Jessica Lange foi à mãe. Uma prova que, de fato, as pessoas à margem da sociedade são mesmo mais interessantes. Uma dica: assista os extras. Bom filme.

Alexandre Derlam é diretor de cena, com entusiasmo contagiante pela Sétima Arte. Foi ela quem influenciou suas escolhas profissionais. Alex é formado em Publicidade e Propaganda pela ULBRA. Já produziu material sobre cinema em rádios, jornal, TV e nas telas de cinema. Trabalhou várias vezes na produção do Festival de Cinema de Gramado (RS). Dirige para o mercado publicitário gaúcho há 10 anos. Sua carreira iniciou na RBS TV e RBS Vídeo, onde foi produtor executivo. Está na produtora Estação Elétrica desde 2001. Realizou os comerciais da Rede de Lojas Colombo em 2007. É diretor de "Papão de 54", documentário que foi seu projeto de maior notoriedade até o momento. Trata-se de um emocionante resgate do lendário time do Renner. Uma produção independente lançada em DVD e já exibida pelo Canal Brasil.
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Um comentário para “As pessoas à margem da sociedade são mais interessantes”

  1. Aline em julho 6th, 2009 at 3:20

    Incrível! Como pode alguem viver tão isolada?

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