Amor silencioso e amor silenciado

Por: Liandro Lindner
categorias: Cultura Pop, Letras
Data: quinta-feira, 15 de maio de 2008

Novo livro de Lya Luft, \Esperei chegar à tranqüilidade de minha casa para ler o último conto do recente livro de Lya Luft. Entre duas viagens de avião devorei as histórias que giram em torno da incomunicabilidade ou de dificuldade de comunicação entre pessoas que se amam. “O silêncio dos amantes” é uma sucessão de relatos de pessoas ligadas pelos laços de família ou dos sentimentos que se vêem em situações limites onde a necessidade de expressão é grande, mas a incapacidade disto é maior. Nas 20 narrativas temas difíceis como morte, rejeição, abandono, suicídio, frustração e vingança são tratados de forma sensível, sem exagero ou pieguice. Todas têm em comum a dedicação que o amor alicerça encarando o vazio da falta de retorno, das decisões egoístas, do individualismo. No último capítulo a autora semeia a esperança ao contar um episódio duro e cheio de dor, mas que teve seu alento através do silêncio cúmplice que se torna igualmente causa de união, estas são, no dizer da autora, “zonas de segredo necessárias”.

Existe ainda preconceito contra a literatura de Lya Luft, principalmente após sua contratação como articulista da Revista Veja. A patrulha de plantão considera a revista como a bíblia da “direita conservadora” e a ida da autora pra lá foi erroneamente entendida como uma adesão a esta corrente. Lamentável que a imaturidade política continue criando cercas de separação e fogueiras de condenação a artistas deste quilate. Quem conhece o universo da escritora, que há quase 30 anos tem uma produção notável, sabe que sua obra não se enquadra nesta avaliação mesquinha que nos dias de hoje soa como obsoleto. O tema deste último livro é algo da mais verdadeira atualidade: as pessoas não sabem mais dizer que se amam, ou expressar este sentimento em forma de atos de compreensão, paciência e dedicação. Isto não se restringe apenas a casais e aos pares românticos, mas se estende aos laços familiares de pais e filhos, geracionais ou até de amizade. De certa forma a patrulha sobre sua obra é também uma representação da dificuldade de comunicação dos que optam pelo radicalismo e pela busca de idéias ilusoriamente puras e assim caem nos monólogos e no imobilismo.

De todas as dores que o livro trás muitas me chamam a atenção e algumas chegaram a me incomodar. O filho suicida, a mãe alcoólatra, o pai violento, a avó massacrada pelo alzeheimer, a dor da vergonha, da decepção, do abandono tudo isto tendo como personagens pessoas que se amam, mas que, por causa destes problemas, não conseguem viver este sentimento, principalmente de forma comunicacional e relacional. O silêncio é o grande elemento presente em todo livro. Passeando entre os capítulos e histórias, ele aparece de duas formas: como presença maléfica e amarga e como convivência benéfica e companheira, conseqüência da intimidade cultivada. Quantas vezes na vida real preferimos silenciar o nosso sentimento, consumidos pelo cotidiano, pela timidez ou pela valoração de coisas tão pequenas desprezando o acontecimento raro e grandioso do amor. Nossos pequenos vícios acabam por consumir como ferrugem a grande armação do sentimento, ameaçando ruir toda a estrutura por conta da ação danosas destes pequenos elementos.

Mas por outro lado, e o último capítulo lindamente se debruça sobre isto, existe o silêncio que é resultado de uma relação que evoluiu para a intimidade. Ali as palavras têm sentido menor, pois no olhar, nos gestos, na compreensão da necessidade do espaço individual e no respeito a este que a relação se desenvolve. Mesmo quando as cicatrizes de dores pretéritas e fantasmas insistentes batem à porta dos amantes, que buscam em pensamentos diversos, respostas para sofrimentos vividos, o consolo vem na presença companheira que entende estas dores e no silêncio que não cobra, não exige, não provoca, mas na sua presença conforta e acolhe. A simples existência desta presença já serve de conforto e acolhida amenizando o que provoca o sofrimento. Há uma diferença entre o sentimento silenciado no barulho dos problemas, mas que existe ali em estado desnutrido e carente e o que age silencioso, mas presente escondido em gestos de carinhos e atenção. Em todas estas situações o amor existe sobre diversas formas respondendo sempre as nossas reações, maravilhosas ou vergonhosas, nada, portanto mais humano e nada mais representativo desta condição de humanidade imperfeita e em evolução.

Por Liandro Lindner, jornalista (blog: Coisas que eu Vi Vendo)

Liandro Lindner é jornalista, pós graduado em Teoria do Jornalismo e Comunicação de Massa. Gaúcho, residente em Brasília, mas cidadão do mundo. Geminiano, curioso, carente, compulsivo e viajandão. Escreve para o blog http://coisasqueeuvivendo.blogspot.com.
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