“Amantes”
Por: Robledo Milani
categorias: Cinéfilo, Colunas, Críticas, Película
Data: quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
O mais recente trabalho do diretor James Gray, “Amantes”, como o próprio título já anuncia, é uma história de amor. Mas está longe de ser um romance convencional. E é justamente em todas as suas diferenças em que reside sua impressionante força. O grande problema deste belíssimo filme, no entanto, foi uma distração paralela acontecida durante seu lançamento nos Estados Unidos: uma desastrada entrevista do ator Joaquin Phoenix, em que anunciou que estaria desistindo da carreira de ator para se dedicar à música. Um elemento que só colaborou para dispersar a atenção do público, levando-o para longe do produto artístico. E este, infelizmente, foi o que mais sofreu, acabando por ser menosprezado durante sua exibição na tela grande.
James Gray é um realizador que pega temas aparentemente comuns e consegue oferecer uma nova visão sobre eles, dotando-os de nuances e detalhes até então poucas vezes perceptíveis. Foi assim em “Caminho Sem Volta” e em “Os Donos da Noite”, ambos dotados de uma estrutura policialesca, mas evidentemente baseados em fortes pilares familiares. Dessa vez, no entanto, ele continua tendo um olhar na família e no apoio e influência que esta exerce sobre o indivíduo, mas a impressão que passa é a de estar se colocando antes de tudo se desenrolar, na origem das coisas. Quando os primeiros vislumbres de uma possibilidade amorosa se realçam, levando-nos a acompanhar o início, e não as conseqüências.
Phoenix, num dos seus melhores desempenhos, aparece como um rapaz dotado de um distúrbio psicológico leve, porém presente, que apesar
de já ter passado há muito dos 30 anos continua morando com os pais. As chances de se endireitar na vida surgem quando conhece a filha de um casal de amigos, que lhe é apresentada como futura noiva numa negociação quase que comercial – estamos falando de famílias judias, fortemente arraigadas as suas tradições e costumes. A pressão para que o relacionamento aconteça até chega a lhe incomodar brevemente, mas o sentimento que passa é o de que até ele mesmo reconhece que, na falta de algo melhor, talvez esta seja a opção mais apropriada a ser feita. Mas tudo muda quando ele nota uma vizinha, igualmente um pouco maluquinha, mas dotada de uma vida intensa, que consegue, mesmo em breves encontros, iluminar sua existência com alegria e um colorido todo especial. E seus desejos e desencontros entre as duas garotas é que mantém o interesse do espectador, somado ao fato que nem sempre a escolha mais óbvia é a que será seguida.
Além de Gwyneth Paltrow e de Vinessa Shaw (“Melinda e Melinda”), ambas em atuações marcantes, outra performance feminina que domina a cena a cada rara aparição é a de Isabella Rossellini, que mesmo já perto dos 60 anos continua sendo uma das mais belas mulheres do cinema mundial. Mas apesar desta trinca de peso, o filme é mesmo de Phoenix e de Gray, dois nomes que fazem diferença no cinema norte-americano atual. E se o primeiro realmente decidir se aposentar, fica aqui um belo testemunho de sua arte, numa despedida à altura. E, quanto ao segundo, nos resta torcer para que ele continue entregando ao público obras como essa, humildes em suas intenções, porém carregadas de uma energia realmente singular.
Two Lovers, EUA, 2008
De James Gray
Com Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow, Vinessa Shaw, Isabella Rossellini, Moni Moshonov, John Ortiz, Elias Koteas
(nota 8,5)






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