“Achados e Perdidos”

Por: Robledo Milani
categorias: Cinéfilo, Colunas, Críticas, Película
Data: terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Apesar de ser baseado no romance homônimo de Luiz Alfredo Garcia-Roza (autor também do best seller “Uma Janela Para Copacabana”), “Achados e Perdidos” guarda pouca semelhança com a sua fonte original. Pra se ter uma idéia, até o personagem principal, o detetive Espinosa, é deixado de lado, abrindo espaço para um coadjuvante do livro, que aqui assume como protagonista: Vieira (Antonio Fagundes, muito bem), um policial aposentado que guarda um segredo no passado. Apesar de alguns méritos inegáveis da produção e do elenco, a obra como um todo melhor se encaixaria no ‘quase lá’: é quase boa, quase surpreendente, quase notável.  

Vieira acorda em sua casa, após um porre homérico. Não tem lembranças de nada, do que aconteceu na noite anterior ou de como foi parar ali. As coisas pioram quando antigos colegas aparecem na porta do apartamento para perguntas. Aparentemente, ele é o principal suspeito de ter assassinado a prostituta Magali (Zezé Polessa, muito convincente, em cenas bastante ousadas). Acontece que os dois eram amantes, e lhe faltam motivos para tal crime. Enquanto é investigado, vai se envolvendo aos poucos com Flor (Juliana Knust, o ponto fraco do trio principal, deficiente nas cenas de maior intensidade dramática, comprometendo muito o resultado final), uma garota de programa iniciante, que era “protegida” de Magali e dividia apartamento com ela. Ambiciosa, a jovem parece decidida a substituir o lugar da ex-colega na boate e no coração de Vieira, um homem perdido e frustrado, que precisa descobrir a verdade, mesmo que essa signifique sua própria condenação. 

Com um clima policial bem estruturado, “Achados e Perdidos” é um filme noir úmido, que se esgueira pelas ruas de um Rio de Janeiro sujo, fétido, violento e, apesar disso, um pouco artificial. Tudo é escuro, abafado, onde a ausência de luz provoca mais estranhamento do que proporciona familiaridade. Outro problema é o roteiro de Paulo Halm, que apesar de possuir elementos intrigantes, se desenvolve de modo confuso e equivocado, ao entregar a solução do mistério com muita antecedência. Qualquer espectador minimamente atento descobrirá o que está acontecendo antes dos próprios personagens – o que é fatal para qualquer enredo de suspense. A mão pesada do diretor José Joffily entrega um filme muito similar ao seu anterior, “Dois Perdidos Numa Noite Suja”: com bons intérpretes, destacados cuidados técnicos, porém sem alma, nem paixão. Uma obra fria, com dificuldade em se comunicar com o espectador. 

Iniciativa interessante dentro do cinema nacional, “Achados e Perdidos” é um longa universal, que apesar do visual carioca poderia muito bem se passar em qualquer lugar do mundo. Apesar das deficiências de Knust, que estréia aqui no cinema, Fagundes e Polessa seguram bem o interesse, assim como coadjuvantes como Hugo Carvana, Flávio Bauraqui e Genézio de Barros. É um filme que cansa, principalmente na metade final, mas que possui atrativos suficientes para se justificar. Um trabalho que poderia ser muito mais, mas que ainda assim tem possibilidades para encontrar seu lugar. 

Achados e Perdidos, Brasil, 2006
De José Joffily
Com Antônio Fagundes, Zezé Polessa, Juliana Knust, Roberto Bomtempo, Hugo Carvana, Genézio de Barros, Malu Galli, Ricardo Blat, Flávio Bauraqui, Babu Santana, Isaac Bernat

(nota 6,5)

Robledo Milani é crítico de cinema, formado em Comunicação Social pela UFRGS. Já teve textos publicados em jornais, revistas e em diversos sites pela internet, além de ter trabalhado em rádio e em televisão. Robledo Milani é membro fundador da ACCIRS, Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul.
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