“A Teta Assustada”

Por: Robledo Milani
categorias: 37º Festival de Gramado, Cinéfilo, Colunas, Críticas, Especiais, Película
Data: domingo, 20 de setembro de 2009

Grande vencedor do Festival de Berlim deste ano, “A Teta Assustada” é uma verdadeira revelação – nunca antes uma produção realizada no Peru tinha feito tanto sucesso internacionalmente. Além da competição alemã, o longa da diretora Claudia Llosa (sobrinha do escritor Mario Vargas Llosa) foi premiado também no Festival de Gramado (com 4 kikitos, inclusive Melhor Filme, Atriz e Direção) e no de Guadalajara (Filme e Atriz). Desempenhos impressionantes para um representante de uma cinematografia completamente inexpressiva no cenário mundial. Não consigo lembrar qual foi o último filme deste país a ser exibido comercialmente no Brasil. Sei, apenas, que valeu a pena esta espera, porque o que se vê agora é algo completamente arrebatador.

“A Teta Assustada” fala de uma lenda dos Andes, que afirma que as mulheres do interior do Peru traumatizadas pelas guerras e barbáries internas do país décadas atrás nunca teriam conseguido superar estas lembranças, e que os bebês gerados por estes estupros estariam igualmente marcados pela tragédia, uma vez que o medo que as mães sentiram seria passado aos filhos através do leite materno. A protagonista é uma destas herdeiras, uma mulher tímida e receosa que tem como único porto seguro a mãe e os familiares mais próximos. Na primeira cena, no entanto, ficamos ao seu lado durante os últimos instantes de vida da progenitora. Sozinha, precisa encontrar um rumo para a própria vida, ao mesmo tempo em que luta para cumprir uma antiga promessa: arrecadar o dinheiro suficiente para poder enterrar a falecida em sua terra natal.

Duas mulheres são as grandes responsáveis pelo excelente trabalho visto em “A Teta Assustada”. Llosa, além de dirigir, também o produziu e escreveu, adicionando um cuidado todo especial a um projeto que poderia muito facilmente ser mal compreendido não fosse a delicadeza e o talento da protagonista Magaly Solier (que estreou no cinema graças à diretora no filme anterior dela, “Madeinusa”). Além de um olhar absurdamente expressivo e da capacidade de transmitir uma variedade incrível de informações a seu respeito em apenas poucas palavras, ela também possui uma voz incrível – dom muito importante ao personagem. Seu canto nos toca e emociona, e acabamos por viver as mesmas sensações de liberdade e entrega que ela experimenta quando consegue, finalmente, se livrar das amarras psicológicas tão entranhadas em seu ser e simplesmente se deixar levar pelo sonho, desejo e esperança.

Dono de uma força bastante singular, “A Teta Assustada” é um filme que merece ser visto e revisto com cuidado e bastante atenção. Abaixo da história que carrega há muitas outras leituras, e talvez a mais importante delas seja a mensagem de uma mulher que luta para ser ela mesma, a despeito do que todos os que estão ao seu redor possam pensar ou questionar. Sofrida em sua trajetória e vencedora em sua sobrevivência, encontra vontades onde outros por muito menos já teriam desistido, servindo de exemplo não só ao seu sexo ou comunidade, mas a todo um país que merece viver além de tudo isso e se encontrar digno de respeito e notoriedade. Uma conquista fervorosa e merecedora de muitos aplausos, que precisa falar não só aos interessados, mas também deve ir ao encontro daqueles possuidores de uma sensibilidade elevada.

La Teta Asustada, Peru/Espanha, 2009
De Claudia Llosa
Com Magaly Solier, Susi Sánchez, Efraín Soliz, Marino Ballón, Antolín Prieto

(nota 9 )

Robledo Milani é crítico de cinema, formado em Comunicação Social pela UFRGS. Já teve textos publicados em jornais, revistas e em diversos sites pela internet, além de ter trabalhado em rádio e em televisão. Robledo Milani é membro fundador da ACCIRS, Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul.
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