“A Festa da Menina Morta”

Por: Robledo Milani
categorias: Críticas, Especiais, Filmes, Guarani, Película
Data: quarta-feira, 24 de junho de 2009

Um dos longas brasileiros mais interessantes e perturbadores de 2008 está chegando aos cinemas somente agora, com mais de um ano de atraso. “A Festa da Menina Morta”, que marca a estreia como cineasta do também ator Matheus Nachtergaele, é tudo e mais um pouco do que se poderia esperar de um artista como este: um verdadeiro soco no estômago, contundente em seu discurso e emocionalmente belo em sua sensibilidade. O realizador teve ainda a sabedoria – ou seria sorte? – de escolher um elenco absurdamente entregue em seus personagens e uma equipe técnica que compreendeu perfeitamente as intenções motivadoras. Ou seja, estamos diante de um feliz caso da soma de vários fatores que resultam em algo ainda mais empolgante do que os valores de seus membros isolados. Um feito e tanto.

Exibido pela primeira vez durante a mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes do ano passado, “A Festa da Menina Morta” despertou atenções e curiosidades desde o início da sua produção. Na verdade a ideia do projeto nasceu anos atrás, quando Nachtergaele filmava “O Auto da Compadecida” e se deparou pela primeira vez com a história que agora conta. O que mudou foi o cenário – do sertão da Paraíba para as comunidades ribeirinhas do interior da Amazônia – mas a essência permanece a mesma. A trama se passa em torno de Santinho, um rapaz que é considerado milagroso por ter recebido, em suas mãos, após o suicídio da mãe, trazidos pela boca de um cachorro, os restos do vestido de uma menina há muito desaparecida. Como ela jamais foi encontrada, estes trapos manchados de sangue passaram a ser adorados como sagrados, dando início a uma tradição que é relembrada em festa anualmente. Tudo isso ocorre a despeito do sofrimento do irmão da garota, ao mesmo tempo em que o milagreiro afirma receber mensagens da vítima, que são sempre revelados no auge das comemorações.

Se Nachtergaele se sai muito bem neste difícil desafio por ele mesmo imposto, outros são também merecedores de aplausos. Daniel de Oliveira vem construindo uma carreira surpreendente (“Cazuza – O Tempo Não Pára”, “Zuzu Angel”, “Batismo de Sangue”), e aqui nos oferece outro grande desempenho, intenso e arrebatador, confirmando-se como um dos maiores intérpretes nacionais da sua geração. Cássia Kiss (“Chega de Saudade”), mesmo aparecendo poucos minutos, domina completamente a cena, numa performance hipnótica. O gaúcho Juliano Cazarré (“Nome Próprio”) pode ser novato no ofício e ainda não muito conhecido, mas é um nome para ser guardado com cuidado. Seu desempenho aqui é revelador e merecedor de elogios dignos de veteranos. Jackson Antunes e Dira Paes completam este bom conjunto, em atuações igualmente bem sucedidas. Outros pontos de destaque são a fotografia claustrofóbica e angustiante de Lula Carvalho (“Tropa de Elite”), que colabora muito na criação de um sentimento geral de desespero e esperança, a direção de arte discreta e eficiente de Renata Pinheiro (“Feliz Natal”) e o roteiro muito bem amarrado escrito pelo próprio diretor em parceria com Hilton Lacerda (“Baixio das Bestas”).

“A Festa da Menina Morta” foi um dos grandes vencedores do 36º Festival de Gramado, tendo ganho os kikitos de Melhor Ator (Oliveira), Fotografia, Música, Prêmio Especial do Júri, Melhor Filme segundo a Crítica e também pelo Júri Popular. Foi premiado ainda no Festival de Chicago (Melhor Filme – Novos Diretores), Festival do Rio (Direção e Ator), Festival de Cinema Luso-Brasileiro (Ator) e no Festival de Cinema Brasileiro de Los Angeles (Fotografia e Roteiro). Uma carreira extremamente bem sucedida que coroa com louvor um trabalho assumidamente autoral e sem concessões, corajoso ao tocar temas como incesto, religiosidade e violência, e ainda assim completamente eficiente em sua comunicação com um público inteligente e perspicaz, capaz de reconhecer a verdadeira arte quando em seu encontro. Uma obra acima da média, que merece não apenas ser descoberta, como também intensamente valorizada.

A Festa da Menina Morta, Brasil, 2008
De Matheus Nachtergaele
Com Daniel de Oliveira, Juliano Cazarré, Jackson Antures, Cássia Kiss, Dira Paes, Paulo José

(nota 8,5)

Robledo Milani é crítico de cinema, formado em Comunicação Social pela UFRGS. Já teve textos publicados em jornais, revistas e em diversos sites pela internet, além de ter trabalhado em rádio e em televisão. Robledo Milani é membro fundador da ACCIRS, Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul.
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Um comentário para ““A Festa da Menina Morta””

  1. Ton em junho 27th, 2009 at 8:27

    Esse tu gostou né?!
    Imaginei…
    abraço

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