A dor, segundo Claudel
Por: Thiago Ramari
categorias: Críticas, Película
Data: terça-feira, 10 de março de 2009
O amor materno incondicional pode levar uma mulher a optar pela morte do próprio filho. Este crime dá-se em situações extremas e não é consumado sem, antes, acorrentar a mulher a uma dor da qual ela jamais se verá livre. O retrato desse sentimento é feito de maneira pungente em “Há Tanto Tempo Que Te Amo”, de Philippe Claudel. Naturalmente, essa relação, tão absurda a princípio, exclui as mães que, munidas apenas de crueldade, dão fim à vida de uma criança pelo mais torpe dos motivos. Neste caso o que resta ao fim, além do difícil convívio com a morte do filho, são os pesados grilhões impostos pelo ostracismo social.
Este premiado filme francês tem estreia em circuito nacional agendada para 17 de abril. A protagonista é Juliette Fontaine (Kristin Scott Thomas), uma médica que passou 15 anos na prisão, após ser condenada pela morte do único filho, na época com seis anos de idade. Desde que lhe aplicou uma injeção letal, ela nunca relevou os motivos que a levaram a cometer o crime, nem mesmo durante a iminência de ser penalizada no julgamento. A toda pergunta, a médica sempre respondeu com o silêncio.
O longa-metragem começa com Juliette em um aeroporto francês, à espera da irmã Léa (Elsa Zylberstein), algumas horas depois de deixar a prisão. A cena inicial, fechada em primeiro plano, revela, por meio do olhar desiludido da protagonista, que, apesar de todos os anos que passaram, o sofrimento continua, latente. Nem mesmo o reencontro com a irmã a entusiasma. A prisão gerou um abismo entre os familiares e a primeira conversa entre as duas é marcada pela frieza intransponível de Juliette. A adaptação social também será difícil, sobretudo durante entrevistas de emprego.
“Há Tanto Tempo Que Te Amo” foi considerado a maior estréia do ano passado na França. O roteiro e a direção têm a assinatura de Philippe Claudel, que, embora seja iniciante no cinema, apresenta um filme inegavelmente maduro. O ponto alto é a exploração cuidadosa da transformação da protagonista, que, aos poucos, e não sem dificuldade, passa a se relacionar de maneira menos tensa com as pessoas que (re)
conhece. A evolução desse processo leva a médica a recuperar a confiança na irmã e a revelar, em um dos momentos mais emocionantes, por que assassinou o próprio filho.
A atuação das atrizes do núcleo principal confere densidade às personagens e possibilita vida longa ao roteiro de Claudel. Enquanto Zylberstein constrói o papel de uma irmã que é compreensiva, tentando respeitar os limites da outra, Scott Thomas se mostra assustadoramente introspectiva. Esta característica leva a protagonista a falar muito mais pelo olhar do que pelas palavras calculadas. A trilha sonora de Jean-Louis Aubert, usada sempre pontualmente e sem exageros, acentua o tormento calado de Juliette.
“Há Tanto Tempo Que Te Amo” é diferente da maioria dos filmes que alcançam o tão esperado sucesso comercial. Ao invés de cenas abarrotadas de diálogos, de personagens estereotipados e de montagens cada vez mais aceleradas, Claudel aparece com um delicado estudo sobre a complexidade do comportamento humano vitimado pela perda e pela culpa, quando obrigado a se adaptar a uma realidade que lhe é quase que inteiramente hostil. Um trabalho de peso, sem maneirismos e perturbador.
Il y a Longtemps Que Je T’Aime, França/Alemanha, 2008
De Philippe Claudel
Com Kristin Scott Thomas, Elsa Zylberstein, Serge Hazanavicius, Laurent Grévill, Frédéric Pierrot, Claire Johnston, Catherine Hosmalin
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