A Cabra ou Quem é Sylvia?

Por: Fábio Morales
categorias: Cultura Pop, Por Trás do Pano, Teatro
Data: quarta-feira, 19 de agosto de 2009

De tempos em tempos surge na cena teatral, no meio de tanta mesmice, uma coisa diferente, que te faz pensar, te faz sair com a cabeça a mil. Fazia tempo que não me sentia assim: envolvido, embevecido, instigado e principalmente provocado. “A Cabra” é provocador, desconcertante, um texto que choca e causa as mais diversas reações no público. Há gente que a trata como uma simples comédia e gargalha do início ao fim, assim como aqueles que se levantam no meio do espetáculo e vão embora. Há, também, os que irão se identificar e rir discretamente, com medo de se entregar.

Escrita por Edward Albee, autor de sucessos como “Quem tem medo de Virgínia Woolf?”, “Um Equilíbrio Delicado” e “Três Mulheres Altas” (pela qual ganhou seu terceiro Prêmio Pulitzer), entre tantos outros, “A Cabra ou Quem é Sylvia?” foi escrita em 2000 e estreou em Nova York em 2002, com Bill Pullman e Mercedes Ruehl à frente do elenco, e já arrebatou de cara quatro prêmios de melhor espetáculo, entre eles o Tony. O texto fala basicamente da relação do premiado arquiteto Martim com sua esposa Stella, um casal aparentemente perfeito. Num belo dia, em um passeio pelo campo, ele se apaixona por outra. Não seria nada de novo, a não ser pelo fato de que a paixão em questão seja por uma cabra!

O espetáculo começa num tom de comédia, com os diálogos ácidos entre o casal, e vai num crescente impressionante até culminar num grande drama – e por que não dizer, numa tragédia? Ainda figuram na história o filho gay do casal e um “amigo”. “A Cabra” trata de intolerância, daquilo que você camufla e que não tem coragem de falar. Em um momento da peça o personagem diz a seguinte fala: “então quer dizer que não importa o que eu faço, mas sim se as pessoas sabem o que eu faço?”! A peça escancara essa hipocrisia e nos coloca cara a cara com sentimentos que nos incomodam, e ao mesmo tempo fala também de amor, seja ele como for, de convivência de compreensão.

Não é a toa que esse texto ganhou vários prêmios, e a montagem brasileira foi eleita o melhor espetáculo do ano passado por uma importante revista nacional. Mais uma vez Jô Soares mostra seu talento na direção – nos últimos anos Jô já esteve à frente dos fantásticos “Ricardo III” e “O Eclipse”, e faz aqui mais um grande trabalho com foco no ator. Um belíssimo cenário de Isay Weinfeld, figurinos de Lu Pimenta, iluminação, trilha sonora, tudo se apresenta num casamento perfeito. Nos papéis menores aparecem o bom Norival Rizzo e o promissor Gustavo Machado, ambos em bons trabalhos. Denise Del Vechio se esmera na composição de Stella, entregando-se num belo desempenho e mantendo um bom nível na troca com seu parceiro de cena. José Wilker, confesso, é um ator que me cansava um tanto. Depois de fantásticos trabalhos nos anos 70e 80 no cinema, teatro e TV, nos anos 90 em diante – principalmente a partir de 2000 – ele tem se repetido em aparições de pouca expressão. Só que aqui a coisa é diferente! Wilker faz “O trabalho”, uma atuação sensacional, carregada, emotiva, crível, de arrepiar! Ele volta à velha forma e arrebata.

Não sei dizer ao certo se a platéia está preparada para essa produção. Eu, pelo menos, me incomodo com manifestações descabidas em momentos chave da peça. Não sei até que ponto as pessoas conseguem entender realmente o que tem por trás da história aparentemente cômica de um homem que vive um amor por uma cabra. Filtrar e pensar ou simplesmente preferem achar que é uma comédia rasgada, aplaudir , comer uma pizza e dormir. Comigo, essa Sylvia mexeu – e muito! Respeito imensamente atores, histórias e diretores que me fazem pensar e não me entregam tudo de mão beijada.

Passe por essa experiência. Garanto que, seja para rir ou para refletir, essa Cabra vai mexer com você de alguma forma.

A Cabra ou Quem é Sylvia?
De Edward Albee
Direção de Jô Soares
Com José Wilker, Denise Del Vecchio, Gustavo Machado, Norival Rizzo
Em turnê pelo Brasil
Cotação: Excelente (*****)

Fábio Morales é formado em turismo e hotelaria. É, também, um simples apaixonado e viciado em teatro. Escrever sobre uma coisa que me faz tão feliz é um prazer. Welcome to my life!
Mande um mail para para Fábio | Veja outros textos assinados por Fábio Morales

2 comentários para “A Cabra ou Quem é Sylvia?”

  1. Roberto Antunes Fleck em setembro 16th, 2009 at 17:47

    Fábio Morales foi muito feliz ao comentar “A Cabra”. Um espetáculo que foge à tendência de nossos palcos de apresentarem comediazinhas caça-níqueis ou besteróis que ficam anos e anos em cartaz, sendo adulados pela imprensa, como se fossem o máximo. Para quem gosta de teatro, recomendo que, se um dia retornarem a Porto Alegre, não percam “Norma”, com Ana Lúcia Torre e Eduardo Moscovis, “Diretrizes para um tempo de paz”, de Bosco Brasil, com Tony Ramos e Dan Sulsbach, agora nos cinemas da cidade, e “Os Coveiros”, também de Bosco Brasil, com André Mattos e Marcos Pasquim. São três grandes espetáculos que nos emocionam, nos fazem pensar e nos arrancam da mediocridade de um teatro que só visa à bilheteria. “Diretrizes” levou a plateia do Theatro São Pedro, em 2007, a aplaudi-lo por vários e vários minutos, por ser uma peça que deveria a cada ano voltar para o palco do nosso querido teatro da Praça da Matriz. Os três espetáculos são excelentes.

  2. Fabio morales em outubro 5th, 2009 at 18:15

    Muito obrigado pelo elogio, e que bom que vc faz parte das pessoas sensíveis que entenderam este maravilhoso texto. Siga acompanhando novidades sobre outros espetáculos aqui.

Deixe um comentário

XHTML: Você pode usar estas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Twitter


Vídeo da Semana

Trailer do filme "Karate Kid" em HD


Últimas


 

Top 10 Brasil – 17/05/2010

  • 01. “Robin Hood” (Universal)
    Estreia: 396.440
    Público Total: 396.440
  • 02. “Alice no País das Maravilhas” (Disney)
    4ª semana: 365.070
    Público Total: 3.399.875
  • 03. “Homem de Ferro 2″ (Paramount)
    3ª semana: 344.416
    Público Total: 2.476.338
  • 04. “Chico Xavier, O Filme” (Downtown/Sony)
    7ª semana: 67.232
    Público Total: 3.255.095
  • 05. “A Hora do Pesadelo” (Warner)
    2ª semana: 60.970
    Público Total: 229.706
  • 06. “O Preço da Traição” (Playarte)
    Estreia: 31.181
    Público Total: 33.580
  • 07. “Missão Quase Impossível” (Imagem)
    2ª semana: 26.332
    Público Total: 98.186
  • 08. “Tudo Pode Dar Certo” (Califórnia)
    3ª semana: 16.460
    Público Total: 106.832
  • 09. “Caçador de Recompensas” (Sony)
    5ª semana: 12.490
    Público Total: 597.787
  • 10. “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” (Imagem)
    Estreia: 12.159
    Público Total: 12.159