“(500) Dias com Ela”

Por: Robledo Milani
categorias: Cinéfilo, Colunas, Críticas, Película
Data: quinta-feira, 24 de junho de 2010

Um dos filmes mais interessantes exibidos recentemente nos cinemas – e que agora já se encontra disponível em dvd – é a ‘tragicomédia’ romântica “(500) Dias com Ela”, de Marc Webb. E o forte da produção é justamente algo meio que em baixa hoje em Hollywood: seu bom roteiro! A trama em si não tem nada de muito original, mas o que surpreende é a forma como o esquema básico garoto conhece garota-garoto e garota se apaixonam-garoto e garota se separam-garoto e garota são felizes para sempre é contado. E acredite: por mais corriqueiro e repetitivo que esse enredo possa soar, o final irá surpreender muita gente! Ponto pra eles!

Marc Webb não era ninguém antes desse projeto: havia feito apenas dois videoclipes, um curta-metragem e um musical para televisão. Depois de “(500) Dias com Ela”, no entanto, ele conseguiu assinar para comandar a nova versão do herói Homem-Aranha na tela grande! Que responsabilidade, não? E tudo isso porque foi capaz de conferir verossimilhança e despertar uma atração quase juvenil ao mais corriqueiro dos arcos narrativos, contando para isso com muita sagacidade e inteligência. Sua sintonia com a modernidade é quase gritante – tudo é muito popular e orgânico, ao contrário dos ditos quase exagerados dos filmes de Tarantino e Kevin Smith, por exemplo. E a funcionalidade com que tudo se move em sua história é seu maior mérito!

Em “(500) Dias com Ela”, acompanhamos uma paixão pelo olhar masculino. Mas Tom (Joseph Gordon-Levitt, de “G.I Joe”) não é o macho tradicional. Ele está muito mais próximo do homem do século XXI, inseguro, frágil, temeroso pelo futuro e assustado com as surpresas do destino. Ele trabalha como roteirista numa empresa de cartões de presente. Uma vida banal, enquanto aguarda uma oportunidade para se realizar como arquiteto. Isso até que Summer (Zooey Deschanel, de “Fim dos Tempos”) começa a trabalhar no mesmo escritório. O encanto – ao menos da parte dele – é imediato. Ele se apaixona, ela o acha engraçado. Ele se declara, ela quer apenas curtir. Ele imagina um futuro juntos, ela só pensa no hoje. Ele quer tudo, ela está satisfeita com o que tem recebido. E as diferenças entre eles serão cruciais neste relacionamento. Até porque, como o próprio título já adianta, serão apenas 500 dias juntos que eles terão.

Talvez seja essa crueza melancólica responsável pelo sopro de renovação a um gênero tão combalido. Comédias românticas são, em 98% dos casos, exatamente iguais. Por isso que é tão bom quando uma consegue inovar, escapando do clichê mais básico. Finais felizes não são tão comuns assim na vida real, e é muito bom quando percebemos que nem tudo está perdido na primeira derrota. Afinal, a guerra continua, e é o nosso empenho em cada batalha que fará diferença no final. Só não podemos nos dar por vencidos, pois o amor verdadeiro pode estar ali na esquina.

“(500) Dias com Ela” estreou no Festival de Sundance, em janeiro de 2009, e desde então tem conquistado um público mais alternativo e críticos por todos os lugares onde é exibido. No Globo de Ouro chegou a ser indicado aos prêmios de Melhor Filme e Melhor Ator (Gordon-Levitt), na categoria de Comédia ou Musical. Neste caminho foi premiado em diversos festivais, como o dos Críticos da Florida, de Hollywood, no Independent Spirit Awards, nos Críticos de Las Vegas, no Satellite e nos Críticos de Southeastern (como Melhor Roteiro) e no dos Críticos de San Diego (como Melhor Edição), além do prêmio especial para o diretor no National Board of Review. Nada mal para um filme que custou em torno de US$ 7 milhões e arrecadou mais do que 5 vezes esse valor só nos Estados Unidos! Um tesouro discreto, que chegou de mansinho, mas que merece ser descoberto.

(500) Days of Summer, EUA, 2009
De Marc Webb
Com Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel, Geoffrey Arend, Chloe Grace Moretz, Clark Gregg, Rachel Boston

(nota 8,5)

Robledo Milani é crítico de cinema, formado em Comunicação Social pela UFRGS. Já teve textos publicados em jornais, revistas e em diversos sites pela internet, além de ter trabalhado em rádio e em televisão. Robledo Milani é membro fundador da ACCIRS, Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul.
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