“3 Macacos”
Por: Robledo Milani
categorias: Cinéfilo, Colunas, Críticas, Película
Data: domingo, 26 de julho de 2009
Premiado no Festival de Cannes de 2008 como Melhor Direção, o longa turco “3 Macacos” chegou aos cinemas brasileiros com mais de um ano de atraso. Mesmo assim a espera compensa, principalmente pelo aspecto pitoresco do longa, que parte de uma trama familiar bastante trágica para discutir assuntos universais. Os silêncios, os mal-entendidos, as submissões e os desejos abordados parecem, num primeiro olhar, distantes da nossa realidade, mas a medida em que o enredo avança vamos nos identificando cada vez mais com a situação que está sendo desenhada. E no final, o que se tem está além de uma mera questão geográfica: são sentimentos que qualquer um de nós já enfrentou em algum momento da vida. E talvez seja isso que faça deste longa algo tão interessante.
O título faz referência óbvia à conhecida lenda japonesa dos Três Macacos Sábios, aqueles que nada veem, nada ouvem e nada falam. Esse mito vem do Séc. XVII, e afirma que, se os homens não olhassem, não ouvissem e não falassem o mal alheio, teríamos assim comunidades pacíficas com paz e harmonia. Pois é justamente isso que os três protagonistas desta história tentam fazer, falhando miseravelmente. Afinal, são pessoas comuns, enfrentando dilemas humanos e conflitos simples, como falta de dinheiro, amores não correspondidos, traições de todos os níveis, falta de esperança e sonhos despedaçados. Como seria fácil se todo conselho pudesse ser aplicado imediatamente, se mudar de atitude fosse algo comum e se assumir compromissos não implicasse em outros tantos problemas!
“3 Macacos” começa numa estrada escura, numa noite de chuva. Um atropelamento acontece. Quem dirige é um importante político que,
temeroso do que aquilo possa lhe causar, oferece um bom dinheiro ao seu motorista – de folga naquela ocasião – para assumir o crime no seu lugar. O homem aceita, pensando na família e na escassez de possibilidades no horizonte para melhorar de vida. No acordo, há também uma compensação financeira à esposa e ao filho do empregado, para assim poderem se sustentar enquanto o patriarca estiver na prisão. Estas três pessoas, cada uma encarcerada sob um aspecto diferente, são os tais macacos do título. O marido calado num mundo em que todos gritam, a mulher cega por uma paixão que não tem futuro, e o filho surdo ao drama que afligiu os pais e, por consequência, ele próprio.
Dono de uma fotografia exuberantemente triste, de uma plasticidade arrebatadora, “3 Macacos” encanta também pelas interpretações dedicadas do elenco principal, pelo roteiro bem amarrado e pela direção segura. São poucos diálogos, mas todos colocados com muito esmero e cuidado, como se cada palavra pudesse alterar por completo o sentido do que está sendo dito. Tudo é econômico, e esta escassez de elementos, ao invés de afastar, conquista justamente pelo estranhamento. É um filme muito diferente do que estamos acostumados a presenciar, e é preciso uma dedicação extra, acima de tudo no início da ação, para adentrarmos neste contexto e deixarmos nos envolver. A dor exposta não é de um ou dois, mas sim de todos nós. E por não ter medo de enfrentar o óbvio é que esta obra consegue se destacar com tamanho impacto.
Üç Maymun, Turquia/França/Itália, 2008
De Nuri Bilge Ceylan
Com Yavuz Bingol, Hatice Aslan, Rifat Sungar, Ercan Kesal, Cafer Köse, Gürkan Aydin
(nota 8)






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