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“Fim dos Tempos”

Written on 3 de julho de 2008 – 13:19 | by Robledo Milani |

Filmes-catástrofes são quase um gênero à parte. E “Fim dos Tempos”, novo longa de M. Night Shyamalan, tem todos os requisitos necessários deste estilo tão hollywoodiano. Porém apresenta algo a mais. E foi justamente este ingrediente extra que incomodou tanta gente, desde o público mediano desinteressado em se aprofundar nos temas levantados quanto a crítica internacional, desacostumada a lidar com trabalhos que apresentem novas propostas e fujam do convencional. E Shyamalan está virando craque nisso: reinverter fórmulas pré-estabelecidas e introduzi-las sob um novo contexto, propondo um olhar diferenciado. E mais uma vez ele cumpre o que promete.

A referência básica é Hitchcock (desde a trilha sonora até os próprios enquadramentos, passando pela edição objetiva e o posicionamento dos atores, sempre enfocados com bastante precisão), principalmente “Os Pássaros” (1963). Assim como neste filme, a ação de “Fim dos Tempos” começa aparentemente de forma gratuita – é a tragédia inesperada e não anunciada. Aqui, o que vemos são pessoas atacadas, pensa-se à princípio, por uma ameaça terrorista de efeitos químicos e biológicos. Multidões perdem os sentidos e passam a se suicidar em série. Tudo acontece em grandes centros urbanos, e principalmente em áreas bastante arborizadas, como parques. O medo se instaura pelo país, e logo começa a gerar reflexos no interior e em cidades menores. Um professor de ensino médio, sem entender o que está acontecendo – assim como todos ao seu redor – se junta à esposa e parte numa fuga para o mais distante possível do foco de ataque. Mas o perigo pode estar partindo de algo muito mais próximo do que o imaginado.

“Fim dos Tempos” não é uma obra perfeita – muito pelo contrário, está longe disso. Mark Wahlberg, o protagonista, convence pela inabilidade em lidar com os fatos ao seu redor. Ele não sabe para que lado seguir, o que fazer e como agir com a esposa. Zooey Deschanel (“O Guia do Mochileiro das Galáxias”) também é um ponto forte, num desempenho ao mesmo tempo seguro e frágil. Já John Leguizamo é um desperdício – além de sair logo de cena, o pouco que faz não é dos mais verossímeis. Ele é um ator muito mais físico do que cerebral, ao contrário do personagem que tenta defender, sem muito sucesso. A trama também possui alguns deslizes, como todo o episódio da velha senhora misteriosa, mais no final, que parece fazer parte de uma outra história à parte. Isso sim é sem sentido. Já o resto, que pode parecer confuso, tem uma lógica toda própria que merece ser estudada com mais cuidado.

Já foi muito comentado, então partirei da premissa que a causa da tragédia em “Fim dos Tempos” é conhecida pelo leitor – caso contrário, se não quer se aprofundar mais no enredo do filme, o melhor é parar por aqui. A explicação mais lógica para o que acontece é de que seriam as plantas que estariam reagindo ao abuso do Homem. Ou seja, estariam liberado toxinas que afetariam o sistema neurológico humano, desencadeando ao terríveis episódios narrados. É um terrorismo ecológico mais óbvio, que partiria justamente das “vítimas”: o meio-ambiente. Pode parecer por demais absurdo, mas se pararmos por um instante quantos eventos similares no transcorrer da Humanidade não recordaremos? Desde o desaparecimento dos dinossauros até o recente tsunami, é tão improvável assim pensar que a própria natureza possa reagir e propor um novo equilíbrio auto-sustentável?

Após dois filmes que ninguém assistiu nem lembra, M. Night Shyamalan conquistou o mundo inteiro com “O Sexto Sentido”, seu maior sucesso até hoje, filme que arrecadou quase US$ 700 milhões em todo mundo e foi indicado a 6 Oscars, inclusive a Melhor Filme e Direção. Depois ele veio com “Corpo Fechado”, uma nova leitura sobre as histórias de super-heróis. Pouca gente entendeu, mas como logo em seguida surgiu “Sinais”, outro impressionante sucesso de público, tudo ficou tranqüilo. Ou não, pois na seqüência vieram “A Vila” e “A Dama na Água”, duas obras muito interessantes que provocaram mais fúria e indignação do que elogios – simplesmente pela incapacidade dos ditos entendidos em compreenderem estas tramas tão simples quanto curiosas e inovadoras. O mesmo acontece em “Fim dos Tempos”, um filme que merece ser observado além do que está disposto na tela, numa visão muito mais complexa e interessada. Seu problema tentar propor vida inteligente dentro do esquemão robotizado de Hollywood. Aqueles que conseguirem fugir do banal e do estereótipo encontrarão uma obra singular. Mas chegar até ela não é tarefa simples, e por isso que o esforço do espectador deve ser valorizado. Mesmo diante uma cultura fast food, onde tudo se entrega pronto para consumo imediato.

The Happening, EUA/Índia, 2008
De M. Night Shyamalan
Com Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo

(nota 7)

 

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